Histórias de BH

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O tucanense que abastece mineiros - Rúbia Piancastelli e Pedro Moreira Gomides

Tucano é uma cidadezinha de cinqüenta mil habitantes encravada no nordeste baiano, a 252 quilômetros de Salvador. É uma região em que a aridez do sertão não dá tréguas: faz vir as secas, dificulta o trabalho na roça e acaba endurecendo as pessoas. Mas isso não impede muitos tucanenses de transpor as fronteiras baianas e ir buscar, para além dos confins nordestinos, caminhos diversos. É o caso de Pedro Uildon Santos Pereira, que aos 15 anos de idade desceu o estado da Bahia, fixou-se em São Paulo por um tempo e veio parar nas montanhas das Gerais. Na região central da capital belo-horizontina, Pedro deu continuidade ao ofício aprendido na metrópole paulista: aqui, ele é um dos que, com o acervo generoso de seu sebo, o Horizonte, bem localizado no número 172 da Rua Guajajaras, próximo à Escola de Direto da UFMG, alimenta as prateleiras de todos os que ainda recorrem a este amigo silencioso e fiel o livro.

Em 1983, desejando caminhos mais amplos do que os do sertão baiano, o tucanense Pedro vislumbrou meios para uma vida mais digna na São Paulo, onde moravam os tios. Lá, mais interessado em pavimentar um caminho profissional do que em enfrentar a convocação para os serviços militares, o jovem baiano viu na Livraria Brandão-Sebo, que define como a “maior livraria de livros usados do Brasil”, o porto seguro que o livraria dos quartéis. Acolhido pelo sebo de portentoso acervo, Pedro foi introduzido aos segredos da arte de vender e comprar livros, consolidando, ao longo de 12 anos, não somente seus conhecimentos alfarrábicos, mas a relação sentimental com os livros, fundamental para que se tenha sucesso na área. Além disso, não tardou para que o jovem livreiro entendesse que os sebos são, mais que estabelecimentos comerciais, um ambiente propício para o aprendizado. “Uma escola mesmo”, nas palavras de Pedro, que sempre aprendeu com professores, médicos, jornalistas, advogados e estudantes que, na hora de comprar, passavam ao livreiro a cultura adquirida através dos livros. A Brandão era, assim, a sua escola: “aprendi, lá, a lidar com livros e a ser livreiro de verdade. Hoje, não me considero um amador em minha profissão, me considero entre os melhores do Brasil”.

Talvez possuído pela persistência daqueles que esperam pela chuva tardia, tolerando as asperezas do sertão, o livreiro Pedro, ainda que bem estabelecido em São Paulo, na Brandão, queria mais: “Eu era tudo lá, menos dono. Ajudei muito a loja com as vendas, mas não era um negócio meu”. E foi assim que, em 1997, Pedro Uildon Santos Pereira, sabedor de que a capital mineira oferecia um ambiente razoável para que ele desse início ao seu próprio negócio, abandonou a metrópole paulista e foi para Minas: “Eu não tinha condições financeiras de abrir nada lá [em São Paulo], apesar de o mercado ser melhor. Aqui, com um décimo do valor eu conseguiria abrir uma loja”.

Estrangeiro tucanense nas montanhas

Não foi fácil estabelecer-se em Belo Horizonte. Pedro não conhecia mineiro algum que lhe pagasse um café: “Eu me sentia como um estrangeiro em meu próprio país”. O ano era 1997 e, segundo ele, o mercado de sebos e livrarias evoluiu desde então: “Os livros eram muito maltratados e as livrarias, em sua maioria, muito desorganizadas. O livro tinha pouco valor de mercado”. O investimento em qualificação e organização foi o metódo que Pedro empregou para entrar na cena alfarrábica de Belo Horizonte: “A gente procura atender da melhor forma possível, atende ao cliente indicando obras de grande valia e com conteúdo”.

Há 11 anos e meio, ao abrir a Livraria e Sebo Horizonte, hoje contando com cerca de 50 mil títulos distribuídos por dois andares repletos de estantes, Pedro possuía 3.500 livros para dar início ao negócio. Um início tímido, mas que logo ganharia impulso: “Ainda me lembro do dia que comprei 20 cartolinas na livraria Leitura e escrevi: compro e vendo livros”. Tentativa simples e eficaz. Ao ver os anúncios de Pedro, o senhor Sandoval de Abreu Sader, corretor de seguros, fez ao livreiro uma oferta: “Disse que teria um negócio de mil livros para me propor. Eu não tinha dinheiro, mas tinha que comprá-los, era minha oportunidade. Fechamos o negócio e comemoramos com pizzas e vinho, numa época em que eu comia só pão por causa das dificuldades financeiras”, lembra Pedro.
Dado o pontapé, outras oportunidades surgiram: “Compramos a biblioteca do Desembargador Lincoln Rocha e do filho dele, Lincoln Rocha Jr., com mais de oito mil volumes; a do presidente da Antártica em Minas, Sr. Hermógenes Teixeira Ladeira, com um acervo de arte e direito ímpar; a do Sr. Souza Leal Neto, pernambucano que reside em BH, com mais de seis mil volumes. Todos eles estão ainda vivos, mas mudaram de negócio ou quiseram enxugar um pouco o espaço”.

A divulgação, nos primórdios da loja, era feita via anúncios: na rua, em cartazes, nos jornais e em catálogos telefônicos: “Eram investidos R$4 ou R$5 mil reais nesses anúncios, tudo pra mostrar que havia uma livraria em BH capaz de comprar uma biblioteca”. Mas, às vezes, a sorte cruzava o caminho de Pedro, trazendo-lhe oportunidades que não se davam com o intermédio da propaganda. Foi assim ao comprar a biblioteca de cinco mil volumes do Dr. Fernando Antônio, distinto juiz, dono, junto com a mulher, D. Vanessa, da Britânica Imobiliária, que inicialmente alugava o ponto na Rua Guajajaras para o inquilino baiano. “Ofereci R$35 mil, depois de pesquisar muito sobre as obras. D. Vanessa me exigiu R$25 mil. Me disse que ela não precisava nem saber do restante, era para mim”, conta Pedro, que até diz hoje colher frutos da bondade de D. Vanessa.

Quem vem do sertão não tem medo de nada

Essa ampliação do acervo e a conseqüente consolidação do ponto de Pedro, filho do sertão tucanense em uma terra que não era a sua, só foi possível após lutas não apenas ligadas às dificuldades oferecidas pelo comércio de livros. Além de complicações burocráticas envolvendo a conquista do ponto nobre da Guajajaras, o livreiro Pedro teve que aprender a ser dono de um estabelecimento após 12 anos atuando como funcionário da Brandão, em São Paulo. Diz ele que não havia medo, “mesmo porque quem vem do sertão não tem medo de nada, só da seca, mas é muito diferente passar para este outro lugar”. O tempo, no entanto, o ensinou a ocupar esse lugar. Hoje, passando o dia na Horizonte, onde conta com o apoio da funcionária Cleane Fernandes Britis, que há dois anos o auxilia nas compras e vendas, o baiano, já impregnado pela mineiridade, domina seu ofício: “Faço esse trabalho há 24 anos, praticamente todos os dias, sei o que tem aqui e sei o que não tem”.

É com essa segurança que Pedro Uildon Santos Pereira vai driblando a Internet e a televisão, que assustam os vendedores mais antigos, mas tornaram-se aliados do livreiro baiano. “Como não existe tabela oficial no Brasil para os livros, o preço está na oferta e procura. Com a Internet há a possibilidade de comparar os preços, o que torna a pesquisa mais fácil, além de conquistarmos um novo cliente, o virtual”, conta Pedro. Com o sistema informatizado, Pedro não tem medo da Internet, vende até para fora do país, pois acredita que, apesar do aumento da concorrência e do sumiço de alguns “clientes de balcão”, a contrapartida foi uma expansão das possibilidades, pois os perfis de compradores variam muito.

Abastecendo as bibliotecas de Belo Horizonte e de todo o país, Pedro mantém sua garra baiana e apreço pela organização e valor dos livros em seu sebo, onde, como gosta de dizer, “você encontra um pouco de tudo e se não encontrar eu acho para você”.

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