Histórias de BH

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Memórias e Legados da Fafich - Rubia Piancastelli

A vida dos faficheiros (nome carinhoso e cheio de estereótipos que se refere a todos que estudaram na Fafich) podia ser dividida entre a política e a boemia, duas ricas fontes de produção e elucubrações. O prédio da Rua Carangola, com seus vários cursos, mais parecia um templo multicultural onde se experimentava de tudo e ali mesmo provava-se de suas conseqüências.
De um lado, os bares que pipocavam pelo bairro Santo Antônio como um desdobramento do lendário Bar do D.A e as mil festas que eram feitas em nome da paz e do amor. De outro, o valioso legado acadêmico como a sólida estrutura de alguns cursos, e as publicações lançadas há décadas e existentes até hoje.
A Fafich ainda é o reduto dos malucos, hippies, moderninhos, “cdf’s”, todos juntos sob o mesmo teto, convivendo em harmonia com os vizinhos mais convencionais, como biblioteconomistas. A essência dessa herança política e de fervor cultural é tão simples que se torna difícil de explicar, afinal a retórica é o dom e o velho mal dos cursos de Ciências Humanas.

20 anos depois

Um dos legados do curso de História, que de mal-visto passou a ser muito bem conceituado, após sofridas conquistas, é a revista internacionalmente conhecida “Vária História”. Elaborada com a mixaria que restou de um inesquecível congresso realizado pelo departamento na década de 80, a publicação carrega desde seu âmago ares de liberdade de expressão.

Primeiro professor concursado da História e ex-chefe de departamento, Ciro Bandeira, hoje aposentado, conta sobre o evento intitulado “1984: 20 anos depois”. “Queríamos muito esse seminário, mas não havia dinheiro ou infra-estrutura que pudesse receber mais de mil alunos inscritos, vindos de todos os cursos”, conta Ciro. A atração principal era o pensador Florestan Fernander.

Acostumados a fazer as coisas acontecerem apesar de todas as dificuldades (inclusive a de distribuir os diplomas para os participantes), professores do departamento, em especial Ciro e Heloisa Starling, montaram toda a programação. Do próprio bolso, providenciaram o aluguel das cadeiras e o sistema de iluminação que seria instalado. “O auditório não comportava mais de 80 pessoas, e assim, sentei um dia na rampa da Fafich e calculei quantas cadeiras poderíamos colocar ali”, conta Ciro. Foi na mesma rampa em que, 20 anos atrás, na época da ditadura, haviam pisado os milicos na histórica invasão do prédio da Carangola.
Num evento grandioso como aquele, uma celebração que realmente mexia com o sentimento dos que passaram pela repressão da ditadura, a única coisa que não poderia acontecer era chover. Sim, o seminário foi ao ar livre, durante quatro dias, com uma média de 800 pessoas por dia, chegando a transbordar de gente nas palestras mais concorridas.

A instituição patrocinadora foi o CNPq, mas o dinheiro era pouco. A gasolina para levar o palestrante internacional do aeroporto para o hotel Normandy foi paga pelo departamento. “Quando fomos buscar o Florestan no aeroporto, ele, num ato surpreendente, abriu mão do seu cachê’. No dia da sua palestra, o espaço para participantes ficou entupido. Era um dia lindo de maio, o sol estava suave. Florestan fez um elogio àquela ocasião e à celebração da vida que acontecia naquele momento”, conta Ciro.

Todas em uma
Num mundo em pleno questionamento era comum ver as dualidades e ambigüidades em todas as esferas, especialmente naquelas onde o debate e a experimentação eram constantes. O novo e velho modelo, o homem e a mulher, a modernidade e o estereótipo, o estudar e o trabalhar… Para cada embate, milhares de ações e reações, como o feminismo, o movimento estudantil, as greves e as resistências, as discussões dentro de aula e fora dela, as relações nada monogâmicas e também os corações partidos. A Fafich era uma faculdade e muito mais, era a paixão pela sabedoria e suas possibilidades, e também pela vida fora do prédio.
Ciro Bandeira graduou-se em Direito e História; Antônio Prates se ligou com paixão a Ciências Sociais e também à Psicologia e Mirian Chrystus viveu sua juventude entre a Comunicação e as redações do Jornal de Minas e do De Fato. São três ex-alunos que freqüentaram uma mesma faculdade, viveram de formas diferentes o mesmo momento político, receberam influências distintas, mas permaneceram na escola como professores, pela profissão e pela paixão.

Na sua formatura no curso de Direito, em 1964, dois dias antes da imposição do AI-5, Ciro teve uma celebração oficial e uma oficiosa, como não poderia deixar de ser tendo em vista o ano macabro em que se graduou. O Gato de 64, como ficou conhecida a celebração oficiosa no antigo Cinema Metrópole, estava impregnado com a herança de José Carlos da Matta Machado, grande ícone da escola de Direito e vítima do regime militar. Ainda como aluno, Ciro enfrentou outro tipo de guerra, dentro da própria base educacional. Após engolir seco os sorrisos rebotalhos que se seguiam de constantes críticas ao curso de História e seu estigma de ser fraco – Ciro passou anos fora da instituição para depois voltar e lutar em prol das conquistas e do reconhecimento da academia. Uniram-se a ele Carla Anastásia, Lana Siman e Eliana Braga, dentre os outros professores.
Apartidária e apaixonada pelo jornalismo, Mirian Chrystus conta que sua saga na Federal nada seria se não fosse o permitido contato com o jornalismo real através das matérias feitas no Jornal de Minas e no De Fato. Nesse último veículo, criado em 75 e extinto em 80, participou de vários debates políticos promovidos pelos próprios alunos da Fafich e da PUC, responsáveis pela redação e distribuição do material.

A imprensa alternativa do De Fato era um sinônimo de amor à causa, e esteve presente em grandes momentos como o 3º Encontro Nacional dos Estudantes – ENE, em 1978, na Faculdade de Medicina. “Nós do Jornal De Fato estávamos lá dentro do Encontro, através do colega Kennedy Albernaz. Foi nessa ocasião que o Kennedy, com seu temperamento peculiar, flagrou o representante do movimento estudantil sendo abordado por um general para que negociassem a saída dos alunos. Ao responder com um vou consultar as bases’, o jovem ouviu você tem 5 minutos para consultar suas bases’, mostrando que já sabia que a consulta era algo infindável…”, conta Mirian. Junto a Beth Cataldo e Durval Guimaraes grande defensor de uma estrutura mais hierárquica dentro do jornal , passaram bons tempos na redação até que o De Fato decaísse após uma mudança na linha editorial. A mudança, promovida pelos alunos do movimento estudantil, também presentes na redação do jornal, não poderia deixar de ser conservadora, uma vez que se fixava exclusivamente nas necessidades e mazelas do proletariado excluído. Reduziu-se, assim, a variedade de pautas com temas “além-movimento”, levando o outrora alternativo jornal por água abaixo.

A vida dos faficheiros (nome carinhoso e cheio de estereótipos que se refere a todos que estudaram na Fafich) podia ser dividida entre a política e a boemia, duas ricas fontes de produção e elucubrações. O prédio da Rua Carangola, com seus vários cursos, mais parecia um templo multicultural onde se experimentava de tudo e ali mesmo provava-se de suas conseqüências.

De um lado, os bares que pipocavam pelo bairro Santo Antônio como um desdobramento do lendário Bar do D.A e as mil festas que eram feitas em nome da paz e do amor. De outro, o valioso legado acadêmico como a sólida estrutura de alguns cursos, e as publicações lançadas há décadas e existentes até hoje.

A Fafich ainda é o reduto dos malucos, hippies, moderninhos, “cdf’s”, todos juntos sob o mesmo teto, convivendo em harmonia com os vizinhos mais convencionais, como biblioteconomistas. A essência dessa herança política e de fervor cultural é tão simples que se torna difícil de explicar, afinal a retórica é o dom e o velho mal dos cursos de Ciências Humanas.

20 anos depois
Um dos legados do curso de História, que de mal-visto passou a ser muito bem conceituado, após sofridas conquistas, é a revista internacionalmente conhecida “Vária História”. Elaborada com a mixaria que restou de um inesquecível congresso realizado pelo departamento na década de 80, a publicação carrega desde seu âmago ares de liberdade de expressão.

Primeiro professor concursado da História e ex-chefe de departamento, Ciro Bandeira, hoje aposentado, conta sobre o evento intitulado “1984: 20 anos depois”. “Queríamos muito esse seminário, mas não havia dinheiro ou infra-estrutura que pudesse receber mais de mil alunos inscritos, vindos de todos os cursos”, conta Ciro. A atração principal era o pensador Florestan Fernander.

Acostumados a fazer as coisas acontecerem apesar de todas as dificuldades (inclusive a de distribuir os diplomas para os participantes), professores do departamento, em especial Ciro e Heloisa Starling, montaram toda a programação. Do próprio bolso, providenciaram o aluguel das cadeiras e o sistema de iluminação que seria instalado. “O auditório não comportava mais de 80 pessoas, e assim, sentei um dia na rampa da Fafich e calculei quantas cadeiras poderíamos colocar ali”, conta Ciro. Foi na mesma rampa em que, 20 anos atrás, na época da ditadura, haviam pisado os milicos na histórica invasão do prédio da Carangola.

Num evento grandioso como aquele, uma celebração que realmente mexia com o sentimento dos que passaram pela repressão da ditadura, a única coisa que não poderia acontecer era chover. Sim, o seminário foi ao ar livre, durante quatro dias, com uma média de 800 pessoas por dia, chegando a transbordar de gente nas palestras mais concorridas.

A instituição patrocinadora foi o CNPq, mas o dinheiro era pouco. A gasolina para levar o palestrante internacional do aeroporto para o hotel Normandy foi paga pelo departamento. “Quando fomos buscar o Florestan no aeroporto, ele, num ato surpreendente, abriu mão do seu cachê’. No dia da sua palestra, o espaço para participantes ficou entupido. Era um dia lindo de maio, o sol estava suave. Florestan fez um elogio àquela ocasião e à celebração da vida que acontecia naquele momento”, conta Ciro.

Todas em uma
Num mundo em pleno questionamento era comum ver as dualidades e ambigüidades em todas as esferas, especialmente naquelas onde o debate e a experimentação eram constantes. O novo e velho modelo, o homem e a mulher, a modernidade e o estereótipo, o estudar e o trabalhar… Para cada embate, milhares de ações e reações, como o feminismo, o movimento estudantil, as greves e as resistências, as discussões dentro de aula e fora dela, as relações nada monogâmicas e também os corações partidos. A Fafich era uma faculdade e muito mais, era a paixão pela sabedoria e suas possibilidades, e também pela vida fora do prédio.

Ciro Bandeira graduou-se em Direito e História; Antônio Prates se ligou com paixão a Ciências Sociais e também à Psicologia e Mirian Chrystus viveu sua juventude entre a Comunicação e as redações do Jornal de Minas e do De Fato. São três ex-alunos que freqüentaram uma mesma faculdade, viveram de formas diferentes o mesmo momento político, receberam influências distintas, mas permaneceram na escola como professores, pela profissão e pela paixão.

Na sua formatura no curso de Direito, em 1964, dois dias antes da imposição do AI-5, Ciro teve uma celebração oficial e uma oficiosa, como não poderia deixar de ser tendo em vista o ano macabro em que se graduou. O Gato de 64, como ficou conhecida a celebração oficiosa no antigo Cinema Metrópole, estava impregnado com a herança de José Carlos da Matta Machado, grande ícone da escola de Direito e vítima do regime militar. Ainda como aluno, Ciro enfrentou outro tipo de guerra, dentro da própria base educacional. Após engolir seco os sorrisos rebotalhos que se seguiam de constantes críticas ao curso de História e seu estigma de ser fraco – Ciro passou anos fora da instituição para depois voltar e lutar em prol das conquistas e do reconhecimento da academia. Uniram-se a ele Carla Anastásia, Lana Siman e Eliana Braga, dentre os outros professores.

Apartidária e apaixonada pelo jornalismo, Mirian Chrystus conta que sua saga na Federal nada seria se não fosse o permitido contato com o jornalismo real através das matérias feitas no Jornal de Minas e no De Fato. Nesse último veículo, criado em 75 e extinto em 80, participou de vários debates políticos promovidos pelos próprios alunos da Fafich e da PUC, responsáveis pela redação e distribuição do material.

A imprensa alternativa do De Fato era um sinônimo de amor à causa, e esteve presente em grandes momentos como o 3º Encontro Nacional dos Estudantes – ENE, em 1978, na Faculdade de Medicina. “Nós do Jornal De Fato estávamos lá dentro do Encontro, através do colega Kennedy Albernaz. Foi nessa ocasião que o Kennedy, com seu temperamento peculiar, flagrou o representante do movimento estudantil sendo abordado por um general para que negociassem a saída dos alunos. Ao responder com um vou consultar as bases’, o jovem ouviu você tem 5 minutos para consultar suas bases’, mostrando que já sabia que a consulta era algo infindável…”, conta Mirian. Junto a Beth Cataldo e Durval Guimaraes grande defensor de uma estrutura mais hierárquica dentro do jornal , passaram bons tempos na redação até que o De Fato decaísse após uma mudança na linha editorial. A mudança, promovida pelos alunos do movimento estudantil, também presentes na redação do jornal, não poderia deixar de ser conservadora, uma vez que se fixava exclusivamente nas necessidades e mazelas do proletariado excluído. Reduziu-se, assim, a variedade de pautas com temas “além-movimento”, levando o outrora alternativo jornal por água abaixo.

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