Histórias de BH

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Mangas - Humberto Pereira

Era janeiro ou já era fevereiro de 1951. Só sei que
estávamos de férias e era de manhã. Naquele dia, com
uns 12 anos, eu era o maior dos moleques presentes.
Com tal autoridade juntei todo o mundo numa rodinha
e decretei: “Hoje nós vamos chupar manga na
chácara do Luciano”. O significado disso era o seguinte:
a gente ia entrar num dos mais misteriosos espaços
de nossa rua. Um lugar proibido. A casa de um dos
homens mais ricos e polêmicos da cidade. Lugar onde
um proprietário anterior, o Zé Bastos, tinha atirado
num garoto que entrou lá para apanhar manga. Mangueiras
amaldiçoadas pelas mães mais antigas da rua
que sabiam da história.
Meu plano era simples e seguro. O Luciano almoçava
em casa. Vinha ele mesmo guiando seu carro por
volta de meio-dia, parava em frente à chácara na entrada
da Rua Patrocínio, descia, abria o grande portão
de madeira, voltava para o carro, entrava, descia de
novo do carro e voltava para fechar o portão. Calculei
que durante essa operação toda dava para argumentar
com ele e pleitear a nossa entrada pacífica no mangueiral.
Em férias, a gente andava descalço o tempo
todo. As mães nos impunham as roupas mais velhas
porque era inevitável a sujeira de terra e de barro de
tanto jogar bola. Foi esse pequeno exército de pedintes
que enfrentou o homem.
” Vocês querem manga, não é? Pois então vocês
esperem aqui um pouco que eu volto e vou deixar
vocês entrarem.
Fechou o portão e ficamos por ali, debaixo de um
sol de rachar mamona, uns 10 a 15 minutos até sua
volta, a pé.
Luciano, Antônio Luciano Pereira Filho, era famoso
por várias razões. Rico, dono de banco, de hotel,
de empresa de diversões (quase todos os cinemas da
cidade, inclusive o São Carlos do comecinho da Rua
Padre Eustáquio), dono de milhares de casas e lotes
por toda parte. Os mais velhos, estimando quantas
propriedades ele teria, faziam uma comparação: “Ele
deve ter umas cem vezes mais lotes de que o Ângelo
Grande teve nos bons tempos”.
Mas sua fama maior era outra. Era seu obsessivo
pendor para conquistar mulheres. Era como que o
Casanova, o dom-juan de Belo Horizonte, com recursos
para bancar as consequências de suas aventuras.
Estou falando de coisas que eram de domínio público.
O jornal “Binômio” estampou certa vez uma charge que
dizia tudo. As alunas do Instituto de Educação vinham
desfilando em bloco pela Avenida Afonso Pena; quando
chegavam à altura do Hotel Financial, do Luciano,
faziam um desvio para o outro lado da avenida e só voltavam
para a pista original depois de passado o hotel.
Houve um homem que entrou em confronto histórico
e direto com o Luciano. Não foi nenhum pai,
nem noivo, nem irmão de mocinha, nem o Frei Zacarias,
em cuja paróquia ele morava.
Nas vésperas do Natal de 2008, liguei para o Alyson
Paulinelli para saber direito como foi a contenda dele
com o Luciano. Alyson foi Secretário da Agricultura
do governo Rondon Pacheco, foi depois Ministro da
Agricultura do governo Geisel. Sei que com essa história
parece que estamos saindo do Carlos Prates. Mas
se um bairro não sai de si mesmo fica bairrista, o que
é insuportável. E nem estamos saindo, estamos, ao
contrário, penetrando numa coincidência extraordinária
em que o titular da mesma Secretaria em que
trabalhou o Carlos Leopoldo Prates esteve fazendo
exatamente o que este fez umas sete décadas antes na
Repartição de Terras e Colonização: assentar colonos
para produzir alimentos para a cidade cada vez maior.
Muito bem. Em 1972, no governo de Minas, Paulinelli
implantou um programa chamado Projeto de
Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba (Padap). A
ideia era juntar mineiros e japoneses com experiência
nas cooperativas de São Paulo para exploração racional
de áreas promissoras dos chapadões de cerrado.
Precisava-se de uns 50 mil hectares contínuos que
estivessem ociosos. O lugar ideal foi encontrado em
São Gotardo, a 292 quilômetros de Belo Horizonte.
O primeiro passo tinha de ser a desapropriação das
terras. E de quem era a área? Pois é. Lá foi o Luciano
para a Secretaria reclamar com o Paulinelli.
%u2013 Secretário, o senhor está entrando num equívoco.
O mundo vai ser dominado por esses amarelos.
%u2013 Doutor Luciano, tenho a impressão de que o
senhor não tem título daquelas terras todas. Aproveite
para regularizar. Faça o preço, o governo compra.
%u2013 Eu não vendo, não empresto e não dou.
Mas o projeto seguiu. A desapropriação, Paulinelli
reconhece, aconteceu de maneira excessiva num primeiro
momento, já que abrangeu a casa da sede, tradição
da família desapropriada. O exagero foi logo
corrigido com outro decreto. Mas o Luciano já estava
enfurecido. Daí para a frente tratou o Secretário como
inimigo pessoal. Houve ameaças, processos. Alyson
Paulinelli, acusado de ser comunista, teve de mudar
de casa, trocar número de telefone. No assentamento
houve até sabotagem dos tratores com a colocação de
açúcar nos tanques de óleo. No fim deu tudo certo. E
como as terras em pouco tempo se valorizaram mais
de cinco vezes, o próprio Luciano, que ficara ainda
com muito chão, reconheceu que acabou lucrando. O
chapadão de São Gotardo virou referência em matéria
de produção e produtividade agrícola de alta tecnologia.
Entre outros produtos, a cenoura se destacou de
tal forma que hoje São Gotardo é chamada a “capital
nacional da cenoura”.
Essa briga Luciano/Paulinelli foi pública. Daí que
um dia, pegando um avião no Aeroporto da Pampulha,
Paulinelli foi abordado por um rapaz que também
embarcava.
” O senhor é o Dr. Paulinelli? Eu sou filho do
Luciano. Sou contra ele também. Sou um dos que ele
não está reconhecendo.
” Mas eu não sou contra, não. Ele é que ficou
contra o Estado.
As mangas. Abre-se o portão e aí está o Luciano,
agora sem paletó e sem gravata, com uma sacola de
pano na mão. Manda a meninada entrar. Uns seis ou
sete moleques. Um terreno imenso. Um terreno que
permanecera secreto por muitos anos. Fomos andando
para os fundos, dobrando para o lado esquerdo onde
estavam concentradas as mangueiras. Do lado direito,
mais para baixo, avistamos o viveiro das seriemas, seu
minizoológico, sua casa, a esposa dele na varanda.
Diziam que ele tinha uma filha muito bonita que a
gente nunca via. Aí ele deu a ordem.
” Olha, vocês agora podem subir e apanhar as
mangas. Só não podem subir neste pé aqui.
Ele apontou para o pé debaixo do qual estava.
Uma árvore proibida? Seria a árvore onde morreu o
menino que foi roubar as mangas do Zé Bastos? Era
de se perguntar. Mas a resposta era mais simples.
Depois de apanhar mangas de toda raça ” sapatinha,
coco, espada, rosa, coração-de-boi “, tiramos
as camisas e com elas fizemos sacolas para carregar as
que coubessem. Foi então que ele, sempre debaixo da
árvore proibida, me chamou, eu o maiorzinho.
” Agora você sobe aqui neste pé de ubá com essa
capanga e apanha uma dúzia de mangas, bem escolhidas.
Pega seis no ponto para comer e seis de vez.
Colhi as mangas, desci com a sacola e entreguei
para ele.
” Muito bom. Depois do almoço vou levar para
mamãe.
Em breve, vou ter de passar na frente da fazenda do
Alyson Paulinelli, numa andança a serviço do Globo
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Rural onde trabalho. Ele pediu para eu avisar e entrar
para tomar uma cachacinha. Vou… Mas, de repente
me deu uma curiosidade imensa, dessas que não dão
para esperar. Resolvi ligar de novo para ele. Começo
de fevereiro de 2009.
” Alyson, por acaso você tem manga ubá na sua
fazenda?
” Engraçada essa sua pergunta. Tem um pé de
manga ubá de mais de 60 anos que se esparrama por
cima da casa. É a preferida de todo o mundo e este ano
carregou de perder. Manga tá virando barro no chão.
Minas Gerais tem isto, alguns enigmas que nos
unem a todos nós, os mineiros. Um deles é a manga ubá.

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