Histórias de BH

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Livraria Itatiaia: do Dantês à Bahia - Pedro Moreira Gomides

Quem visita o editor Pedro Paulo Moreira geralmente o encontra em seu refúgio predileto, no décimo-sexto andar do Château de Villandry, um belo edifício de mármore grafitado, cravado no seio do bairro Belvedere. No escritório de Pedro Paulo, relativamente pequeno, estantes de mogno recobrem todas as paredes, ostentando alguns dos mais louvados esforços editoriais da Itatiaia: os dois volumes de Gargântua e Pantagruel, a edição fác-símile da Divina Comédia e o tomo encadernado das Fábulas de La Fontaine. Todos ocupam posição privilegiada no altar do editor. Da janela do escritório, vê-se a Lagoa Seca do bairro, principal referência de uma região que, há quinze anos, ainda era um pequeno deserto belo-horizontino, cujo oásis era composto por casas luxuosas situadas entre os pés da Serra do Curral, a BR-040 e o BH Shopping. Na mesma época em que o fenômeno imobiliário começava a invadir o Belvedere, falecia Edison Moreira poeta, irmão e sócio de Pedro Paulo e a rua da Bahia via o fim da Livraria Itatiaia. Ia-se mais um estabelecimento que iluminou a vida cultural da cidade nas décadas de 60 e 70.

Pedro Paulo, após passar pela Livraria Cultura e pela José Olympio nas décadas de 40 e 50, resolveu aceitar o conselho de D. Tita, sua mãe: “antes ser cabeça de alfinete que rabo de elefante”. E assim, em 1953, juntamente com Edison, fundou a Editora Itatiaia e sua livraria, que ocupava, à época, um espaço na galeria do Edifício Dantês, na avenida Amazonas, próximo à Praça Sete. O nome, confessa Pedro Paulo, é “fruto da minha ignorância, pois pensava que o pico da Itatiaia estivesse do lado mineiro, mas já está na parte fluminense”. Depois da descoberta, o nome já era conhecido e mudá-lo iria de encontro ao seu tirocínio comercial. Segundo ele, ninguém acreditava muito no empreendimento. Vivaldi vivia dizendo: “Que isso, Pedro Paulo! Quer ser o próximo Zé Olympio?” Mal imaginava o irmão mais velho que estaria a freqüentar, dez anos depois, a livraria da rua da Bahia, epicentro belo-horizontino do fervor intelectual mineiro.

A história da Livraria Itatiaia liga-se à rua da Bahia graças a uma outra história: a do romance Doutor Jivago, do russo Boris Pasternak. O livro, que começou a ser escrito entre 1910 e 1920, foi concluído apenas em 1956, dois anos após os irmãos Moreira, Com a sua publicação impedida pelo governo soviético, Doutor Jivago cruzou sorrateiramente as fronteiras da Cortina de Ferro para ser publicado na Itália, em 1957. Um ano depois, Oscar Mendes, um dos intelectuais que então compunham o time de tradutores da Itatiaia, teve acesso à edição francesa do Jivago, cedida a ele por Marie-Louise Bataille, uma das agentes literárias francesas que è época abasteciam Edison e Pedro Paulo. O tradutor leu e disse aos Moreira: “Achei muito interessante! Se quiserem publicar, traduzo com gosto!”

Milton Amado e Heitor Martins juntaram-se a Oscar Mendes e a tarefa tradutória começou. Foi quando Pasternak recebeu o prêmio Nobel da Academia Sueca. O evento por si só já alavanca as vendas de qualquer livro, mas, neste caso, o episódio ganha dimensão ainda maior com a recusa de Pasternak em receber a láurea a saída da União Soviética poderia implicar a perda de sua cidadania, o que o escritor preferiu evitar, declinando do convite para ir à Suécia. Pedro Paulo logo entendeu a importância da publicação de uma edição em português. Com o rebuliço em torno do Jivago, a Itatiaia recebeu 50 mil pedidos adiantados. Pedro Paulo, que então estabelecera uma tiragem de 75 mil, achou por bem dobrá-la: “Era uma loucura! À medida que as traduções iam ficando prontas, colocava-as num avião que aluguei e corria para São Paulo, onde as impressões eram feitas”, conta o editor. Na noite de lançamento, ele chegou em cima da hora, trazendo, no avião, cerca de 20 mil volumes: a última leva.

Leny Moreira, mulher de Pedro Paulo, lembra que a noite de lançamento foi “um negócio de doido”: “Era tanta gente na porta da livraria, que precisamos chamar a polícia. Fizeram um cordão de isolamento, organizando a fila enorme que entrava livraria adentro”. Cada exemplar do romance de Pasternak custava 250 cruzeiros. Pedro Paulo estima a venda de inacreditáveis 10 mil exemplares em uma só noite. Além da venda dos livros, a Itatiaia contou com a publicação do romance em formato folhetinesco nos jornais Última Hora e Estado de São Paulo. Nas idas à capital paulista para imprimir o livro, Pedro Paulo conheceu Samuel Wainer, que encantou-se com o livro; e o editor ainda encontrava tempo para dançar com Danuza Leão, mulher do jornalista, vestida provocantemente de vermelho, “espalhando brasa” pelos salões paulistanos.
Com os ganhos que o Doutor Jivago trouxe, a mudança para um espaço maior, na rua da Bahia, não tardou. No fim de 1958, Pedro Paulo celebrou o feliz transcorrer do ano, dedicando um volume do romance russo a Leny. No frontispício, lê-se: “Para Leny, mais uma vitória nossa. Bhte, Natal de 1958”. Já em 1960, os irmãos Moreira adquiriram a propriedade que abrigaria a Livraria Itatiaia em seus áureos tempos. O número 916 foi o escolhido. Lá funcionava, antes da livraria erguer seu império, a segunda versão do famoso Café Estrela, freqüentado pela elite intelectual brasileira dos anos 1920 e 30 e que fechou as portas no começo dos anos 50. Ficava ao lado do bar Nova Elite o qual, posteriormente, também foi adquirido pelos Moreira. Pedro Paulo conta que adquiriram o bar ainda em funcionamento e tiveram que esperar até que todo os estoque gastronômico e etílico do local fosse consumido pela boêmia belo-horizontina para que pudessem dar início às obras de reforma. Além do Nova Elite e do segundo Estrela, todos pertencentes ao edifício que se erguia sobre eles, o Parc Royal, havia a Casa da Lente, do Barão Herrmann von Thiesenhausen. O fato é que este também caiu na pitimba financeira e os Moreira, com lucros gordos do Doutor Jivago, assumiram as dívidas do alemão e acabaram comprando o espaço da sua falida loja de aparalhos óticos, ampliando, assim, os domínios da Itatiaia.

Em seguida, o segundo andar do Parc Royal também passou a pertencer aos Moreira, que depois compraram todo o edifício. Lá instalou-se o poeta Edison, motor intelectual e social da livraria. “Naquela irreverência dele, o Edison nunca quis trabalhar”, conta o irmão e sócio. Este, preocupado com as vadiagens boêmias do poeta, convocou reunião moreiriana emergencial. Edison já estava instalado no Parc Royal e a livraria florescia na rua da Bahia. Foi lá que Vivaldi, o Moreira mais velho, e Pedro Paulo reuniram-se com o poeta, a fim de ver se ele “tomava vegonha na cara” e assumia suas obrigações na livraria com mais zelo. Conta-se que Edison, irritado com as cobranças, soltou: “Como é que posso trabalhar? Eu sou um pássaro! Feito para voar! Não tenho tempo para essas coisas de trabalho!” Estando a janela do escritório aberta, Edison ameaçou saltar. Vivaldi, preocupado: “Que isso, Edison, larga de besteira, sô!” Mas ele insistia: “Saí da frente, Vivaldi! Não tá vendo que eu quero voar?” Pedro Paulo provocava: “Deixa, Vivaldi! Deixa o bobo se espatifar lá embaixo!”. O poeta, delirante, gritava: “Eu vou pular! Eu vou voar!” Quando tomou impulso, a porta do escritório abriu-se e Jacinta de Oliveira Moreira, a D. Tita, mãe dos moleques, chega para por ordem na casa. Edison não pulou, mas tampouco integrou-se ao regime laboral que lhe impunham.

Enquanto Pedro Paulo geria os negócios da livraria, Edison dava-lhe o sopro de vida necessário para fazer com que lá se reunisse a nata da inteligência mineira. E o fazia de maneira sempre irreverente. Contam Pedro Paulo e a mulher Leny que Ênio Silveira, fundador da editora Civilização Brasileira, teve a idéia de lançar o livro Israel: prós e contras, de Antônio da Silva Melo, na fervilhante Itatiaia da rua da Bahia. Estávamos em 1962. Edison e Pedro Paulo preparam uma bela noite de lançamento. Ao fim da festa, já famintos, os irmãos Moreira, Silva Melo e Ênio Silveira decidem ir jantar no restaurante Tavares, que provia a classe-média belo-horizontina de então com carnes exóticas. Sentado à mesa, desgustando as carnes de caça que o local oferecia e encantado com a atmosfera daquela Belo Horizonte em que faiscava cultura, Silva Melo ajeita-se na poltrona, suspira e sussurra: “Ah! Estou me sentindo como se estivesse em Paris!” Edison, que estava ao seu lado, contempla as longas costeletas que ele ostentava, vira-se de súbito para elas e lhes dá um puxão repentino com os dedos, gargalhando alucinantemente: “Pois agora não tá em Paris coisa nenhuma! Tá em BH mesmo!”

Levando a vida na flauta, mas sempre garantindo o público da Itatiaia, Edison conseguia conciliar facetas para muitos inconciliáveis. Peguemos uma tarde na rua da Bahia. Na Itatiaia, Milton Campos, sentado na poltrona que lhe era reservada, mantém conversa animada sobre literatura com Edison. De repente, uma das irmãs Moreira, a Neta, chega à livraria, acompanhada de séquito feminino glorioso. Edison vê a trupe sedutora da irmã e, indo cumprimentá-las, com o sorriso terno, pára, pensativo, e solta: “Ô Neta, mas que cheiro de boceta danado, sô!” Engana-se quem pensa que Edison fazia-se malquisto com essas doideiras.
Pedro Paulo e Leny relembram episódio que comprova o estranho magnetismo exercido pelo poeta. Era 1961 e a livraria mal estava instalada no n° 916 da rua da Bahia. A pompa da inauguração, onde estiveram o governador Magalhães Pinto, o prefeito Aminthas de Barros e o senador Milton Campos, ainda ecoava na rua. Certa manhã, a livraria ainda vazia, uma jovem cliente entra em busca de um livro. Não encontrando ninguém no balcão, ouve um murmúrio nos fundos da loja, para lá das últimas prateleiras. Aproximando-se, distingue o jingle de um remédio da época: “Tome Patoviz e você será feliz! Tome Patoviz e você será feliz…!” Edison, quando cismava com uma palavra, uma modinha, uma expressão que fosse, a repetia à exaustão. A moça vê um senhor desempacotando livros, agachado ao chão: “Meu senhor, eu estava procurando livro tal…” Inabalável, Edison continuava a cantar o jingle, baixinho. “Meu senhor, por favor…” Nada. Aproximando-se mais ainda, a moça quase cai dura no chão. O poeta vira-se com agilidade sobrenatural e canta, qual um doido, agora em alto e bom som: “Tome Patoviz e você será feliz! Tome Patoviz e você será feliz…!” Assustada, a senhorita corre até o balcão. Pedro Paulo, chegando à loja, não entende a face lívida da moça. “Que foi, minha filha?” Ofegante, ela responde: “Uai, tem um doido ali, no fundo…” Rindo, Edison foi até ela, deliciado com a pilhéria, acalmou-a e a orientou em sua compra. Dias depois, a mesma moça, tendo encontrado Pedro Paulo e outro funcionário na loja, perguntou: “O senhor Edison ainda não chegou?”
A vida na Itatiaia era assim, misturada: de dia, Pedro Paulo e a mulher, Leny, bolavam as inteligentes jogadas editoriais que construíram o nome da editora, a qual, por sua vez, bancava a livraria. O público belo-horizontino que quisesse ler E o vento levou, corria à Itatiaia, pois foi Pedro Paulo que arrebatou a chance de publicá-lo. A José Olympio, desdenhando o livro, recusou-o. Mas um relançamento da famosa adaptação cinematográfica de 1939 reacendeu a fama do romance e as vendas na Itatiaia foram fantásticas. Pouco depois, Pedro Paulo descobriu o autor chinês Lyn Yutang. As vendas do livro Uma família do bairro chinês foram de tamanha magnitude, que o próprio Yutang veio a Belo Horizonte para uma noite de autógrafos, que terminou numa festa orgíaca no andar de cima, ou seja, na casa do Edison. Tais festas, nas palavras de Pedro Paulo, “eram verdadeiros bacanais!” E, segundo ele, ninguém estava imune à magia que lá ocorria. Nem o chinês saiu incólume, tendo dançado e bebido à brasileira no segundo andar do Parc Royal.

O próprio Vivaldi Moreira, irmão mais velho e vetusta reserva moral da irmandade moreiriana, revelava-se totalmente báquico nas festas do Edison, onde histórias as mais inusitadas eram narradas e revelações bombásticas surgiam. Foi, por exemplo, em uma das farras na sobreloja da livraria que o acadêmico Moacyr Andrade denunciou certa falta de criatividade por parte de Eduardo Frieiro, cujo Cabo das Tormentas estava na boca da intelectualidade mineira do início dos 1960: “Frieiro não tem imaginação nenhuma! Eu contava as histórias para ele, que ia correndo pra casa a fim de anotá-las antes que se esquecesse de tudo!”

Embora se dedicasse mais às orgias que à administração da livraria, chefiada quase que exclusivamente por Pedro Paulo e Leny, Edison protagonizava loucuras que também resultavam em êxitos empresariais. Foi assim com o romance O anel de Vanda, do cônego Bueno Siqueira, então ocupante da cadeira 11 da Academia Mineira de Letras. Diz-se que Siqueira chegou ao Edison, pedindo indiretamente uma força para a publicação de seu modesto romance. Empolgado, Edison logo apoiou o cônego e bancou uma impressão de dez mil exemplares. Pedro Paulo, furioso, interpelou o irmão: “Dez mil, Edison?! Dez mil?” Surpreendentemente, o romance foi um sucesso, pedindo logo uma segunda edição. Pedro Paulo conta que todo bom editor “deve ter a volúpia de um jogador, somada à paciência de um buscador”. Ao Edison, faltava paciência, mas abundava volúpia…

Os tempos eram tão prósperos na rua da Bahia, que Otto Lara Resende chegou, certo dia, até os dois irmãos Moreira e disse: “Gente, vocês têm que ir para o Rio!”. Mas Pedro Paulo prendia-se à uma máxima: “Palmeira de manga não vive na praia de Copacabana”. A rua da Bahia era o lar inconteste da Itatiaia. Além disso, a editora já contava com uma pequena sede na capital carioca. Quando soube que a viúva do editor Garnier, francês radicado no Rio, estava vendendo o acervo do marido, Pedro Paulo deixou a livraria nas mãos doidas do Edison e foi sondar os títulos que estavam à venda. A viúva estava prestes a livrar-se da incômoda papelada, quando o editor da Itatiaia foi à sua casa e, remexendo nas sacolas velhas do porão da casa, encontrou originais do último livro de José Veríssimo e e outros tantos de Machado de Assis. Selada a venda, a viúva Garnier disse: “Pois é, Pedro Paulo, bom que você veio de Belo Horizonte. Um parente meu de Itaguara estava prestes a vir para jogar esse lixo fora”.

Voltando à rua da Bahia, Pedro Paulo encontrou-se com Edison e Oscar Mendes. O tema era o livro Lolita, de Vladimir Nabokov, que estava causando furor nos EUA e na Europa. Edison coçava-se: “Vamos deixar o Mendes traduzir, Pedro Paulo!” Mas Oscar Mendes, cauteloso, aconselhou os Moreira: “Vocês estão agora no auge, construindo essa freguesia formidável no coração da cidade… Não publiquem, vai manchar a imagem séria de vocês”. Edison teve que contentar-se com o original em inglês; e Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, não perdeu a chance. Os Moreira não ousaram perverter a harmonia do conservadorismo mineira que pairava pela rua da Bahia…

A partir da década de 80, com os problemas de saúde do irmão Edison e a transformação veloz da atmosfera da cidade – e da própria rua da Bahia – a livraria perdeu a efervescência das décadas anteriores. Pedro Paulo concentrou-se na editora, comandando a sua sede na Floresta. Edison mudou-se para uma chácara nos confins do bairro Nova Suíça, onde continuou com seu reinado de alegria e irreverência. Certo dia, após teimar em tomar banho de piscina num dia particularmente frio, o poeta, já há um tempo adoecido, assinou o fim de uma era, vindo a falecer no dia 29 de novembro de 1991.

“Não consigo voltar ao Parc Royal, à loja onde era a livraria, nem mesmp à rua da Bahia…”, revela Pedro Paulo. Aos 81 anos, completados em setembro de 2000, sua rotina é bem distinta daquela dos tempos da livraria. Contempla idas à editora e longas horas de adoração às belas edições Itatiaia que ele guarda no alto da sua torre marmórea no alto do Château de Villandry, símbolo de uma outra Belo Horizonte.

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