Histórias de BH

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Figuras de outro mundo - Rúbia Piancastelli

Era uma vez uma loira vestida de branco que saía todas as noites e conquistava um rapaz, que gentilmente oferecia para levá-la em casa. Após tomar um táxi com destino à residência, lá pelas tantas a moça pede que parem o carro e aponta para o Cemitério do Bonfim, indicando sua morada. O susto era tão grande que os homens saíam desvairados a correr, com medo da mulher que tomava ares fantasmagóricos e muitas vezes desaparecia.

Como a Loira do Bonfim, outras lendas da região da Lagoinha são contadas por moradores que se divertem e ainda assustam com os casos, alguns fictícios e outros bem reais. Os relatos são sempre carregados de crenças, mas há a outra ordem, a dos fatos estampados nas páginas de jornais da década de 40 em diante. Esses retratam as célebres figuras e seus estranhos hábitos.

Maria Tomba-Homem era uma negra alta e forte, que não dispensava uma briga e ganhava dos mais ousados valentões, dando pernadas e aplicando o famoso rabo-de-arraia, muito usado pelos capoeiristas como golpe de queda certeira. Já o Tarzan do Bueiro fugia da policia e outras perseguições entrando nas valas das ruas e avenidas. Mesmo o Arrudas, com seu caudaloso esgoto, tornava-se um refúgio para o tipo que mais parecia uma ratazana. Sr. Baltazar Botelho lembra-se de que o local preferido do Tarzan era no começo da Rua Curitiba, onde os bueiros eram grandes. O Café Brasil era logo ao lado, e de lá se via o homem correndo e pulando para dentro dos bueiros…

Um dos personagens mais famosos e que vivia nas páginas policiais era o Cintura Fina, um homossexual dotado de grande inteligência e um gênio perigoso. Não podia mexer com ele que era navalhada na certa, lembra Baltazar, que por longos anos fazia a patrulha da Praça com seus comparsas da Aeronáutica. Não foram poucas as vezes em que acudiu os bêbados e atrevidos que amolavam o Cintura, arriscando ter sua pele cortada pelo gilete que era preso a um barbante elástico, lançado habilidosamente pelas mãos do psicopata.

Apesar da guarda civil também atuar na segurança do bairro, a patrulha noturna da Aeronáutica, comandada pelo Sargento Andrade, era a mais respeitada pelo Cintura Fina. Assim que o carro parava frente à calçada onde se encontrava, entrava na viatura dizendo: foram eles que mexeram comigo…. Sua fama era de vaidoso, gostava de ser valorizado e respeitado, atacando ao mínimo sinal de ameaça. Alguns dizem que ele era sapateiro, mas fato é que sua circulação se dava no corredor entre a Guaicurus e a Praça da Lagoinha.

Dá-lhe confusão
Nessa época, havia as lutas de boxe e outros pesos pesados, que geralmente aconteciam na arena da Feira de Amostras, na Rodoviária. O Tocha era um dos lutadores favoritos, inspetor de trânsito que gostava de uma briga, mas não botava uma só gota de álcool na boca. Era um tipo atleta que dava medo no pessoal. A musculatura do homem era algo de dar nó em qualquer camarada, recorda Baltazar. Apesar das brigas e quando acontecia de ter umas facadinhas, raramente se via assassinato. Hoje, por qualquer coisa se mata outro, e naquela época eles raramente andavam armados.

Se havia uma confusão entre namorados, pode estar certo que a Lambreta estava no meio. Mais vista nas redondezas da Afonso Pena, altura da Igreja São José, a emblemática louca perseguia os rapazes e suas namoradas, danando a soltar desaforos que acabavam em discussões de longos relacionamentos. Alguns amigos espertalhões davam dinheiro para que ela falasse coisas do tipo homem, aquele dia você foi lá em casa e não me pagou…. Era uma algazarra só, estendida até o Estádio do Independência, para onde a Lambreta ia fazer troça com os freqüentadores do campo, pintando e bordando com a rapaziada.

Alguns menos loucos e mais espertos, como o mecânico do Bonfim, gostavam mesmo de assustar os outros. Lembra Baltazar que o tal sujeito, extremamente inteligente, criou um carro movido a controle remoto, que usava para pregar peças nos moradores da região. A surpresa estava no fato de o automóvel sem motorista estar em movimento, e daí surgiram boatos sobre o carro de outro mundo. Mas a máquina obedecia a comandos camuflados, o que sustentou por muitos anos a brincadeira que assombrava o carro e os curiosos mais crédulos.

As lendas e figuras não impediam a brincadeira da molecada nas ruas, onde havia peteca, pegador e outras diversões, lembradas com saudade por D. Juracy Ferrari… rapazes se sentavam nas calçadas para tomar uma cerveja e namorar as mocinhas no portão.

Convivendo diariamente com os tipos ou suas histórias, Baltazar conta que o pessoal da Lagoinha era solidário com as figuras que circulavam pela Praça. Nas noites de frio o Café Belo Horizonte, onde Baltazar trabalhou por dois anos, fazia sopa de cebola e servia no cantinho da sacada para os pseudo-indigentes. Uma ou outra briga de rua, giletada, ameaças de mulheres fantasmas e outras de carne e osso, eram parte do imaginário e permaneceram incrustadas na história da Lagoinha.

Gente da Lagoinha
Nem todos os personagens da Lagoinha apareciam nas páginas dos jornais, mas são guardados até hoje pelos amigos que vivem no bairro.

Seu Baltazar nunca esquecerá a família do Sr. Jorge Salomão, cujo filho Bilé, que já faleceu, era o responsável pelo Café Belo Horizonte, onde trabalhou em sua juventude. Eu estudava de manhã e trabalhava de tarde, pegava no almoço e só largava às 22h. O Bilé, que já morreu, tomava conta. O Elias o Tóia, era o outro irmão, único cruzeirense numa família toda atleticana, conta Baltazar. Ali, diariamente, eu via muita coisa. O pessoal de Vespasiano trazia verduras e jantava lá no bar, completa suas recordações dos amigos do estabelecimento que fazia parte da Praça Vaz de Mello.

Baltazar expressa sua gratidão pelos amigos e estende aos familiares que lhe acolheram quando veio de Patos de Minas para a capital, em 1949. Retribuindo a gentileza de forma natural, Baltazar acolheu muitos em seu casarão de 22 cômodos da Rua Diamantina no 365. Como nunca se casou ou teve filhos, criou sobrinhos, filhos bastardos das ajudantes e os Srs. Carlos e Valdemar Candido de Morais. Esses últimos deixaram todos seus bens e objetos de valor pessoal na casa, onde ainda permanecem. O real desejo de Seu Baltazar é tocar seu sítio nos arredores da cidade e fazer de sua casa uma moradia para idosos, quando o futuro lhe permitir.

Dona Juracy, que há mais de 40 anos mora e bate perna por toda a Lagoinha, carrega um grande orgulho de pertencer ao bairro e aos movimentos do qual participa. No Movimento das Donas de Casa, faz parte do núcleo de teatro, além de defender a causa. O que mais a mobiliza, além do grupo de seresta

Lembranças, do qual faz parte e ensaia todas as segundas-feiras à tarde, são as questões do bairro, que defende junto às regionais da prefeitura ou onde mais for preciso.
Locutora por mais de seis anos dos programas da extinta Rádio Lagoinha, o Fala Comunidade e Sempre Viva, levou aos moradores da terceira juventude como gosta de chamar – os boleros e sambas canções que marcaram sua vida, poemas, receitas, entrevistados e outras atrações. Ela ainda se recorda de quando sua melhor amiga e vizinha Vilma Vaz de Melo foi participar do programa, embora quase nunca saísse de casa.

Ela foi falar sobre a vida dela no bairro, pois nasceu aqui na Rua Diamantina. Eu ficava feliz porque todos se admiraram, participavam muito do programa, conta Juracy, que ainda pretende conseguir um espaço para fazer o Clube da Terceira Idade na Lagoinha. E assim são as pinceladas de alegria na vida dos antigos moradores, que outrora eram tomadas por um fervor cultural e experiências mundanas que ficaram na memória.

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