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Café nosso de todo dia - Rúbia Piancastelli

Cafezinho é algo tão bom, que até quando servido gratuitamente não atrapalha a venda. Certa vez houve uma promoção no Mercado Central, onde foram distribuídos cafezinhos e pães de queijo durante todo o dia, um sucesso sem precedentes, que atraía aglomerados de aficcionados. Ainda assim, quem servia o tradicional expresso e outros derivados da bebida em suas lojas, vendiam a iguaria sem qualquer problema. Sidney Gonçalves de Castro Filho, dono da única cafeteria do Mercado e entende-se por cafeteria o local onde o café é o produto principal, servido com a qualidade necessária e inerente ao comércio do grão, conta que a razão dessa procura é nada mais que a apreciação do brasileiro e de estrangeiros pela bebida.

Com uma média de mil xícaras de café servidas diariamente, Sidney dedica-se ao tradicional “Café Dois Irmãos”, estabelecimento o qual administra e trabalha desde 1985, no Mercado Central. A história da venda do produto data de época ainda mais remota, tempos de outros mercados. Antes de se instalar na loja 30, e antes ainda de duplicar suas portas, Sidney era proprietário de um café na Olegário Maciel, dentro do Mercado Novo.

Em 1974, após deixar seu trabalho como vendedor de tecidos na União Brasileira, Sidney foi encontrar-se com o comercio de café por acaso, em suas próprias palavras. Trabalhando como vendedor de ovos da famosa marca Perfa, no Mercado Novo, conheceu outros comerciantes e um de seus vizinhos de barraca, ilustre vendedor de batatas, lhe disse das vantagens em comprar o estabelecimento ao lado, que vendia os melhores cafezinhos. Avaliando a visionária proposta, Sidney não vacilou em tomar a decisão junto ao seu irmão Paulo, o qual lhe acompanhou na empreitada de vender café 24 horas por dia.

Se o Mercado Central funciona das 7h às 18h, o Mercado Novo não parava nem mesmo para cochilar. E sim para tomar sempre, a qualquer hora do dia, um belo cafezinho. Atualmente o horário permitido para o início da venda de bebidas alcoólicas, no Mercado Central, é a partir das 8h, uma vez que a ululante clientela não tinha limites para a ingestão desenfreada de uma boa gelada. Mas o bom café, salvador de ressacas, apuradores do bom paladar e apreciada especiaria internacional, não tem hora. E assim, dia após dia, e xícara após xícara, dedica-se ao café há mais de 30 anos.

De 15 em 15 minutos as cafeteiras antigas são renovadas, os grãos moídos, rendendo as 120 xícaras por quilo, ou ainda sendo ensacadas para o deleite daqueles que deliciam o café em casa. Mas feliz daqueles que estendem suas compras, passeio ou mesmo comparecem ao balcão do Café Dois Irmãos para tomar uma meia ou um inteiro, acompanhado de uma broa saída do forno. Pão de queijo ou biscoito de queijo, independente da forma, são complementos indispensáveis ao suculento desjejum, que desperta logo quando se adentra a entrada da Avenida Augusto de Lima. Logo ali, dobrando apenas uma esquina, o freguês poderá se esbaldar com fervente café Minas Rio, vendido pela bagatela de R$0,80.

A parceria com a Minas Rio, antiga produtora que foi comprada pela juiz de forense Toko, é respeitosamente lembrada por Sidney. O motivo é mais que nobre, afinal de contas, não se encontra mais contratos entre cavalheiros, acordos que se baseiam em palavras, assim como o que foi estabelecido entre o cliente vendedor do tradicional café, e a empresa fornecedora. São mais de 33 anos trabalhando juntos, e nunca houve a necessidade de uma assinatura em qualquer papel. Há coisas que o Mercado Central moderno, com descaracterizados ares de hortifrutigranjeiro e núcleo de especiarias, não conhece mais…

Em 85, quando se mudou para o Mercado Central e deixou o irmão dirigindo o café no Mercado Novo, Sidney era proprietário de apenas uma loja no corredor paralelo a Rua Augusto de Lima, onde ainda se localiza. Anos mais tarde, expandiu seu negócio ao comprar o Palácio das Castanhas, estabelecimento com o qual dividia paredes. Rejeitando uma proposta da concorrente Café Três Corações para financiar a construção de novas estruturas, Sidney continuou fiel à companheira Minas Rio, e até nos azulejos a bela parceria fica evidente, com as xícaras de café customizadas pela arquiteta da nova e grande loja, espalhadas como uma tentação subliminar para enfeitiçar os clientes que por ali passassem.

Após quatro anos e meio de reforma, contando com a mesma turma da “purrinha” que freqüentava o Mercado Novo, Sidney inaugurou o Café Dois Irmãos em 2003. Seu braço direito, o filho Sidney Neto, mais conhecido como Leleco, faz parte da turma que está diariamente a postos, só que do lado de dentro do balcão. Acostumado com a clientela e especialmente com as confidências dos antigos fregueses, que não titubeiam em contar seus segredos ou partilhar os fiados cotidianos, Leleco faz as vezes do pai no caixa, que quase sempre se encarrega de ensinar o ponto do pão de queijo, da broa, do biscoito, garantindo sabor inigualável e uma renovação constante das reluzentes bandejas que apetecem até os menos famintos.

Sindey sabe e vangloria-se em dizer que a qualidade com que sempre tratou seu negócio, um ofício diário que exerce com todo o prazer e coração, são os responsáveis pela longevidade do Café Dois Irmãos. A recompensa do trabalho são as amizades que perduram como o gosto do café na boca, os infindos casos e histórias do arco da velha que aclimatam o ambiente do café diariamente, e religiosamente por alguns frequentadores. Escudeiros fiéis como o próprio irmão Paulo, que trabalhou junto a Sidney por 19 anos, e ainda os amigos Nazzi e Marmutti donos da Nova Brasília, lá se encontram independente do dia, da chuva ou do humor. Pois o café lá os espera, assim como as notícias diárias e as boas confidências masculinas.

“Feio, me vê um cafezinho!”. Simplesmente assim, com um chamado curioso que já é costume dentre os colegas que frequentam o Café, um ou mais figurões se aproximam do balcão, logo abraçando ou calorosamente estendendo a mão para Sidney, Leleco ou uma das “meninas” – como carinhosamente são chamadas as garçonetes impecavelmente uniformizadas. Pelé, dono do bar que leva seu nome, a vizinha Helena, comerciante de queijos e derivados, e a patota do Império da Batata, são amigos que de minuto em minuto vão bebericar um café e botar o assunto em dia.
Os mais assíduos contam com a gentileza de um atendimento onde os gostos e preferências são sempre recordados. D. Clara, José Baltazar, Fernando, Nazzi e Marmutti são conhecidos pelo nome e pelo paladar. D. Isabel, cliente antiga, além dos sacos de café moído, faz questão de encomendar a Sidney seu pacote de cigarros, sempre escolhidos a dedo, pois a data precisa ser mais nova, e a quantidade é sempre a mesma. O preço e descrição do pedido, que é o mesmo há muitos anos, seguem anotados à mão em uma notinha do Café. O prestativo marido, que sempre é encarregado de buscar a mercadoria carinhosamente separada por Sidney, certa vez contou as queixas da doce mulher: “querido, porque você não me trata como o Seu Sidney?” E assim, de caso em caso, o Café se enche de papo.

As mulheres da vida de Sidney – a esposa Ana Lúcia, a filha Isabela e a caçula Michaela enchem as paredes em fotos e a loja de alegria – visitas ilustres assim como a de políticos, músicos e outros distintos que por ali não faltam. Lucia Pacífico, coordenadora do Movimento das Donas de Casa, Zezé Perrela, dirigente do Cruzeiro, não resistem a um cafezinho no Dois Irmãos. Pois se nem o prefeito Fernando Pimentel e o ex-presidente Itamar Franco, quando da cerimônia de lançamento do Posto de Informações Turísticas no mercado, não perderam a oportunidade para degustar a nobre bebida, quiçá reles mortais e figurões da capital.

Na lista de Sidney, assim como as fotos que coleciona por ter ganhado de jornalistas que vivem flagrando famosos nos balcões, ou ainda amigos que registram momentos únicos, figuram ainda os políticos Nilmário Miranda, Célio de Castro, Ciro Gomes e sua mulher, a atriz Patrícia Pilar, o governador Aécio Neves, o carismático João Leite, Garotinho e Cristovam Buarque. Acompanhando as personalidades, sempre existem os divertidos casos, como no dia em que uma distraída atendente, ao receber Fernando Pimentel, que se apresentou como o prefeito de sua cidade, quase foi recebido com um caloroso: “que beleza senhor, Itabirito está mesmo ficando uma beleza”. E mesmo não presente fisicamente no estabelecimento, outros políticos recebem homenagens, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agraciado pelos fregueses mais ousados com a criação do “café à Lula”, aquele que vem com um dedinho a menos em sua porção total, atendendo aos mais econômicos.

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