Histórias de BH

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As pinceladas de Lisete & Alberto - Pedro Moreira Gomides

Na sala de estar de sua casa, Lisete Meinberg se senta diante de um retrato seu, feito por Inimá. Seis de seus próprios quadros ornam as paredes. Duas portentosas esferas trabalhadas em ferro, cheias de sulcos, buracos e cristais incrustados, mostram, em seu interior, formas como que moldadas por um magma vulcânico. Elas ladeiam as duas poltronas da sala e um longo sofá, sobre o qual já sentaram muitas figuras ímpares da história belo-horizontina.

“Foi no Parque Municipal que conheci Guignard”, ela conta, marcando o ponto inicial de uma amizade que estendeu-se até a morte do pintor, em 1962. Dezoito anos antes, em fins de 1943, Guignard chegava a Belo Horizonte, a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, e encontrava um Parque lírico, onde abundava o verde e uma luminosidade ideal para aulas de desenho.

Frequentando a Escola de Belas Artes, já então chamada Escola Guignard, ou, ainda, Escola do Parque, já que era parte inseparável da área verde na qual foi inicialmente instalada, a senhora Meinberg, mulher, desde 1942, do médico Francisco, já participava das longas caminhadas que Guignard empreendia com seus alunos pelo Parque Municipal. O contato entre os dois estreitou-se ainda mais quando a Escola tranferiu-se para uma casa na esquina entre a Rua Tamoios e a Avenida Amazonas. E mesmo após a saída de Lisete da Escola, a amizade floresceu, o que prova telefonema de Guignard, recebido pela artista: “A senhora não quer dar umas aulas aqui na escola, não?”. Já pintora consolidada, a ex-aluna aceita o convite e começa lecionar cerâmica, passando, logo, para o desenho e a pintura.
No mesmo ano, Alberto da Veiga Guignard estabeleceu-se na casa do casal Meinberg. Havia bons 700 mil réis em sua conta de banco, mas ele não tinha onde residir.

Um peru roxo
Santiago Americano Freire, médico, amante das artes, estava a hospedar o já renomado pintor, cuja dificuldade em adaptar-se a regularidades financeiras e em estabelecer moradia fixa já era compreendida e tolerada por seu grupo de amigos, discípulos e admiradores. Mas a casa de Santiago tinha que dar preferência à vinda de um parente do médico para a capital mineira, o que impedia a permanência de Guignard sob o teto dos Americano Freire.

Lisete recebe o telefonema do Dr. Santiago: “É só por 3 semanas. Até lá encontramos um lugar para o Guignard”. Um quarto foi providenciado na casa dos Meinberg, que não hesitariam em ter o mestre em sua própria casa, construída em 1953, sob o meticuloso escrutínio da esposa do Dr. Francisco, já que o projeto inicial era dela, tendo sido concluído e executado pelo primo Luiz Pinto Coelho, o mesmo que traçou as linhas do Edifício Acaica.

Prestes a hospedar o mestre, mais mineiro que fluminense, na Rua Santa Helena, 91, a pintora recebeu de Santiago um conselho que o tempo provou ser valioso: “Não dê dinheiro a ele, dê a mim, que tomo conta das suas finanças”.

Logo no começo da estada do pintor em sua casa, Lisete vendeu um dos seus quadros. O dinheiro, ela o deu a Santiago, na presença do pintor, dizendo: “Olha, Guignard, já que o Santiago é o seu secretário, vou dar a ele o cheque que recebi com a venda dos seus quadros, tá?”. O pintor, no dia seguinte, fez as malas e declarou-se disposto a ir embora: “Estou magoado com a senhora”. Lisete, então propôs a ele: “Vamos fazer uns cartões natalinos bárbaros e vendê-los aos alunos da Escola. Aí o senhor ganha um dinheirinho”. Assim fizeram. Terminadas as vendas, Guignard recolheu, feliz, o dinheiro. Sumiu por três dias. Lisete conta que ele, ao voltar, “parecia um peru roxo, todo sujo e maltrapilho”.

Dr. Francisco passara os três dias em busca de Guignard. Vasculhou o Parque, todos os botecos, “desde os grã-finos até aqueles em que domina o miserê”, conta Lisete, “e até mesmo a zona boêmia”. Nada. Quando o pintor surgiu na rua Santa Helena, a anfitriã, no sermão de recepção, deixou escapar uma pérola semântica: “Guignard! Você pintou comigo, hein!” O hóspede ajoelhou-se: “Perdão, minha senhora!”, e a harmonia reestabeleceu-se entre os dois: a estada do pintor, prevista para três semanas, durou três meses, durante os quais Lisete teve as melhores aulas com Guignard. “Foi só durante esse período que aprendi uma lição fundamental com ele: a tinta é um produto químico e, por isso, a mistura de 3 cores é ruim para as telas”, conta a pintora.

No Parque: um miserê danado

Quando se lembra da transferência da Escola Guignard para o atual prédio no bairro Mangabeiras, Lisete deixa escapar um suspiro de alívio, vendo a mudança como o ponto culminante de uma luta por melhores condições financeiras e estruturais, iniciada desde a fundação da Escola.

De acordo com ela, a precariedade das instalações da Escola no final dos anos 50 e durante os anos 60, então localizadas nas edificações incompletas do atual Palácio das Artes (iniciadas em 1944 e concluídas apenas em 1971), chegou a trazer vantagens para o corpo discente da instituição: “Os alunos que não tinham verdadeiro interesse, que estavam matando o tempo na escola, não duravam muito tempo por lá. O miserê era tanto que eles não aguentavam”. Só os “obcecados pelo trabalho, para quem lápis, tinta e papel eram como um apêndice do corpo”, conseguiam ficar e se formar na Guignard.
Humor para contornar o tal miserê não faltava. “A sala de esculturas, que ficava no sótão do prédio, viva inundada na época de chuva. Colocávamos tábuas por todos os lados, para poder pisar sobre as poças. E junto a elas sempre havia placas, que os alunos colocavam com os dizeres: proibido pescar”, lembra Lisete. Além das placas, muitos dos alunos, no começo da aula, distribuíam sombrinhas para os presentes, “rindo, com a maior cara de pau do mundo”.

Durante esses anos havia, segundo a pintora, uma atmosfera de alta flexibilidade criativa, sem maior rigidez burocrática, o que só depois, com a transformação da Escola em Fundação, passaria a estar presente no corpo docente da instituição. Afinal, não se pode imaginar, em ambientes burocratizados, uma professora que insiste em dar aulas de cerâmica para a faxineira da escola, a qual, em êxtase com a técnica ensinada, resolve parar de trabalhar para se dedicar à arte Lisete o fez na Guignard e morre de rir ao se lembrar da dita servente, que transformou-se em aluna.
De fato, a Escola, projeto que surgiu com a passagem efervescente de Juscelino pela Prefeitura, não recebeu o mesmo entusiasmo por parte dos gestores subseqüentes. Lisete se lembra, por exemplo, de quando, no começo dos anos 60, foi ao prefeito Amintas de Barros, seu amigo e cortejante dos tempos de Automóvel Clube, para se queixar do matagal que crescia ao redor do “esqueleto” Palácio das Artes. “Era um mato enorme, onde uns e outros faziam lá suas necessidades daí vinha um cheiro pavoroso!”. Indignada, Lisete disse ao prefeito:

“Vim pedir pra você capinar a frente da Escola Guignard, nas instalações do Parque”.
E ele: “Uai, mas vocês ainda estão lá?”

Alegando que havia um projeto de transferência da Escola, o prefeito não contou com a reação da então professora: “Olha bem pra mim com esses seus olhinhos de japonês e põe na cabeça que nós não iremos sair dali!”

O mato foi capinado. Mas as obras do Palácio das Artes, onde funcionava a escola, só foram concluídas dez anos depois, sob a gestão de Israel Pinheiro. Guignard já havia falecido oito anos antes e o Parque não mais o promissor epicentro artístico que havia sido quando o mestre de Nova Friburgo, após anos na Alemanha, chegou a Minas e implodiu o academicismo formal, defendido por Aníbal Matos, mostrando aos mineiros a força das vanguardas que há muito dominavam a Europa.

Lisete, nascida Heloísa Selmi Dei (o sobrenome germânico veio com o casamento e o prenome via invenção paterna: “Dizem que papai, nas suas andanças Brasil afora, deve ter conhecido uma francesinha, de nome Lisete, que o encantou profundamente. Passou, então, a me chamar assim Lisete”), guarda o tempo ido com carinho, mas prefere pensar em seu trabalho. Conferindo ao corpo pequeno e já curvado pelo peso dos quase 91 anos frescor e agilidade espantosos, a artista, uma das poucas ainda vivas de sua geração, composta por vultos como Mário Silésio, Mary Vieira, Amílcar de Castro e Farnese de Andrade, sorri e se despede, elétrica e atarefada: “tenho que trabalhar!”.

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