Histórias de BH

Participe do Projeto
Veja aqui as histórias contadas e conte a sua história

Envie a sua história! Você tem uma história sobre algum lugar de Belo Horizonte para
compartilhar? Clique no botão acima para contar ela para todos!

Amarelinho, o Tigre da Floresta e o Coelho Americano - Pedro Moreira Gomides e Rúbia Piancastelli

Sob o codinome Amarelinho, Waldyr Antônio Lellis coordena hoje a ACSEA – Associação Cultural e Social dos Ex-Atletas do América Futebol Clube -, mas sua história com o clube mineiro, com o estádio do Independencia e o antigo time Sete de Setembro datam de tempos repletos de fatos e pérolas futebolísticas.

Na região circunvizinha ao Estádio Raimundo Sampaio, o Independência, instalou-se, em 1896, o avô de Waldyr, fazendo parte da colônia italiana Américo Werneck que nascia no entorno da atual Avenida Silviano Brandão, na região leste de Belo Horizonte. Abrigando uma paisagem montanhosa, a região resguarda um vale: é lá que, aproveitando a existência do campo do Clube Sete de Setembro, foi construído o estádio do Independência. “A geografia facilitava a arquitetura”, comenta, reflexivo, Amarelinho, que nasceu logo ao lado de onde hoje está o monumento desportivo. Amarelinho morou na Silviano Brandão até 1964, quando se casou, e lembra-se bem das obras de edificação do Estádio, iniciadas em 1948.

Oito anos após a inauguração do Independência, Amarelinho foi convocado para integrar a seleção juvenil mineira – à época, inexistia o Campeonato Brasileiro, os torneios eram interestaduais, disputados por seleções dos estados brasileiros. Quando foi convocado, Amarelinho jogava no saudoso Tigre da Floresta, o Clube Sete de Setembro.

Já então obscurecido pelos pesos pesados do futebol mineiro América, Galo e Cruzeiro , o Sete não perdia o brilho, especialmente devido ao reconhecido, porém “ditatorial”, presidente Raimundo Sampaio. Treinando no Independência, Amarelinho ligava o rádio e ouvia Sampaio, pomposo, já alertando: “Nem adianta querer jogadores do Sete na seleção juvenil. Não cedo mesmo!”. Embora esbravejante, não perdia o humor irônico, sabedor de que raros eram os jogadores de seu clube convocados para as seleções. O próprio Amarelinho, contudo, foi uma exceção: acabou sendo chamado, tornando-se campeão do torneio interestadual juvenil em 1958. Esse mesmo torneio foi marcado por uma homenagem a João Havelange, que à época tomava posse na Confederação Brasileira de Desportos, vindo a ser seu presidente posteriormente, nos tempos em que a CBD passou a chamar-se Confederação Brasileira de Futebol.

O dinheiro do Clube Sete de Setembro era tão escasso que Raimundo Sampaio precisou da criatividade para formular um meio absolutamente natural de aparar o gramado do Independência, onde treinava o time. Comprou um saudável casal de carneiros, famosos por pastarem realizando deslocamentos proporcionais, o que gerava uma aragem simétrica e, sobretudo, barata. Amarelinho lembra que, durante os treinamentos, o prático casal de animais ficava amarrado a uma estaca, observando a movimentação dos jogadores. Talvez com certo ressentimento por serem forçados a ver a invasão de seu pasto por um bando de homens correndo atrás de uma bola, os carneirinhos não raro eram tomados por uma súbita fúria, dando cabeçadas nos jogadores que passassem perto de onde estavam. O próprio Amarelinho, moleque, fazia questão de ir provocar os pobres bichos, por pouco não levando uma pancada dos ressentidos aparadores da verde grama do Independência.

Amarelinho e as Excentricidades

Antes de contar algumas peculiaridades daquele tempo e daquela gente que faz parte da história do Estádio, abre-se um parêntenses para a origem de tal apelido tão simples e singular Amarelinho. Eis que durante uma aula sobre as diversas etnias, um certo professor de geografia detalhava as principais características dos asiáticos. Waldyr, com a pele meio pardavasca e os olhos visivelmente puxados à maneira oriental, foi logo batizado “Amarelinho” pelos colegas. Embora belo-horizontino de ascendência italiana, tornou-se exemplar asiático na sala de aula.

Além de Amarelinho, outras personalidades pitorescas pipocavam por todas as classes que circulavam pelo Independência. Em seus tempos de Sete de Setembro, Amarelinho narra que não só encontrava carneiros no campo, como também deparava com garrafas de cachaças, velas escuras e frangos depenados rodeados de farofa: “Era o Juquita, nosso treinador, que fazia macumba todo santo dia em que o Sete ia jogar…” E funcionava? “Ah, se funcionasse ia ser uma beleza!”. Pode ser que os trabalhos tenham dado certo para o próprio Juquita, que voltou a treinar o Sete de Setembro mais outras sete vezes.

Talvez a macumba tenha favorecido também o destino de um humilde goleiro do Pitangui, o Tupi. Foi em uma de suas temporadas à frente do Sete que Juquita, vendo o bom desempenho do goleiro nas preliminares de 1957 ao lado da seleção mineira juvenil, o chamou para auxiliar na preparação do seu time. “Tupi revelou-se”, lembra Amarelinho. Além de bom auxiliar de preparação, “um sujeito de formidável sensibilidade e de uma ignorância verdadeiramente hilária.”

Conta-se que Tupi, já atuando na preparação do time do Sete de Setembro, foi interrogado pelo repórter Dirceu Pereira (cuja fama de chato era tão grande que Dorival Knippel, o Yustrich, explosivo técnico do Sete de Setembro, certa vez meteu-lhe um soco na cara após encher-se da série de perguntas repetitivas): “Tupi, como é que anda a preparação do time?” E a resposta, impagável: “Ô Dirceu, o time tá bem, o time tá bem… Só tô precisando de um ponta que chuta com direita, esquerda e canhota!”.

Amarelinho certa vez caminhava lentamente pelas arquibancadas do Independência, recém-saído de aplicações de gelo no vestiário, após sofrer lesão grave em uma partida. No campo, Tupi marcava as linhas limítrofes com cal, obedecendo ao costume da época. Ao ver o jogador machucado, insistiu: “Desce aqui, sô!” Após recusar o convite em vão, Amarelinho cede aos pedidos do preparador e vai até ele: “Ô Amarelim, tá sabendo da nova? Por conta dessas coisas de política aí, o jogo de domingo foi adiado pra sábado, acredita?”

O Independência, então “palco de todos os eventos esportivos de Minas Gerais”, contava não só com o público oficial que presenciava o espetáculo das arquibancadas. Atrás da parte fechada do estádio, onde ergue-se o Morro da Pitimba, crivado de pequenas vilas, toma-se uma cachacinha ou uma loira gelada com vista exclusiva para o campo. Amarelinho nunca subiu ao morro, mas, jogando no campo, via de longe os espectadores “na pitimba”, sem dinheiro para comprar ingresso, mas felizes, degustando uma cervejinha e a visão privilegiada do estádio.

Até hoje ele não perde um jogo do América, time que passou a integrar após o bem sucedido desempenho na seleção juvenil mineira do campeonato interestadual brasileiro de 1958. No Coelho, ficou até 63, quando desentendeu-se com o técnico Yustrich, o qual promovia, à época, uma limpeza de jogadores “intelectualizados” no América. Após sair do Coelho e com o avançar da idade, Amarelinho, que chegou a jogar no Esporte Clube Renascença, abandonou o futebol, mas não o Independência, e muito menos a relação carinhosa com dois dos times que lá imprimiram e ainda imprimem sua marca: o coelho americano e o tigre da floresta.

Últimos Lançamentos

Santo Antônio

" O Santo Antônio era modesto, habitado por pessoas modestas, que haviam trazido o interior do estado – Queluz de Minas, Cordisburgo, Barbacena – para o interior de suas casas: a decoração, o enxoval, as comidas, as quitandas, o café fraco já [...]" Leia Mais

Colégio Estadual

" Assim com a arte e a política alimentaram todo aquele período, nem sempre em perfeita comunhão, as sucessivas gerações que dele afloraram no Colégio Estadual não se contentaram em apenas fazer parte da platéia. Por diferentes veredas, [...]" Leia Mais

Mineirão

" A verdade é que o estádio mudou o comportamento da população e estimulou o surgimento de uma cidade novinha em folha: a região da Pampulha. Além de cenário do melhor futebol e do atordoante grito de gol, tornou-se um templo onde a multidão [...]" Leia Mais