Crônicas

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Sábado Depois da Aula

Fernando Fabbrini

Toninho era o nosso Presidente democraticamente eleito. Ah, sim, explico, tínhamos pelo menos um presidente em 1967, o Presidente do Diretório Estudantil do Colégio Estadual. Comparecer à aula sábado de manhã servia apenas como desculpa para a gente se encontrar com o Presidente, Tiza, Paulinho, Xexéu e o resto da turma antes de partir, rumo ao Centro, em solenes incursões etílico-culturais. Ou então – ó povo unido que jamais será vencido – na missão arriscada de engrossar fileiras de uma nova passeata contra qualquer coisa. Incluindo a Guerra do Vietnã, ali tão próxima, ou o famigerado Acordo MEC-Usaid, lembram-se? Movidos pela fome de liberdade, de cultura ou de pastel com cerveja descíamos em bandos pela Praça da Liberdade até a galeria da rua Espírito Santo com Tupis, onde se erguia nosso impávido baluarte contra a Ditadura – a Livraria do Estudante.

Foi lá que, um dia, Zé Márcio e eu pintamos a guache um grande mural abstrato sobre papel kraft ( uma merda! ) e ganhamos nossos primeiros trocados com a arte. Pediram um cenário moderno para um lançamento de livro – coisa freqüente na Livraria do Estudante, porque naquela época os estudantes liam livros, sabiam? Terminamos em cima da hora, já que o Zé inventou de carregar no tom do vermelho. Tá louco, Zé? Chega de cor vermelha. E se passar por aqui um Agente do DOPS?

Pois era o lançamento de um livro de um cara que desenhava charges. Charges – era assim que se chamavam os desenhos daquele tempo, nada de cartoon, vê lá se isso existia. Era um sujeito magrelo, divertido e tinha olhos elétricos, espertos. O livro se chamava Hiroshima Meu Humor e o cara que desenhava as charges era irmão do Chico e se chamava Henriquinho. Depois ele virou Henfil e só voltei a vê-lo na TV, barbudo.

Bebemos algumas caipirinhas ligeiramente mornas com bolinhos de feijão nem tanto. E tal mistura, aí pelas duas da tarde, deu-nos combustível para percorrer o caminho inverso, sempre a pé, depois que alguém convidou: (Tem uma roda de violão na Católica, um cara de fora. Quem vai?)

Fomos. A Católica era na Praça, recanto das universitárias de Belo Horizonte com as quais sonhávamos – porque eram lindas, liam Sartre e entendiam Godard, usavam imensos óculos escuros e eram todas, como se suspeitava vagamente, adeptas do amor livre. Mísero secundarista, quantas vezes desejei perder-me em amores livres por uma universitária da Católica nem um pouco cristã? Estiquei o pescoço por cima de um coque-banana para ver o pedaço de um violão e seu dono, no pátio, cercado por moças extasiadas. Puxei conversa com uma estudante de Direito.
– Quem é? – perguntei.
– Da PUC de São Paulo. Chama-se Francisco Buarque de Holanda.

E isso é nome de cantor? Fui embora. Sábado depois da aula ainda dava tempo de pegar a matinê do Pathé, ali pertinho. Na boca, o resto do gosto azedo da caipirinha era deliciosamente doce aos meus dezessete anos.

Fernando Fabbrini é profissional da área de Comunicação, cronista, autor do livro Almanaque das Coisas – Edições CLA. Nasceu em Belo Horizonte em 1949 e depois de rodar muito por aí, resolveu e voltou.

fabbrini@gmail.com

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