Crônicas

Veja algumas crônicas sobre os bairros mais famosos de Belo Horizonte

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Para Sempre, no Rio da Minha Aldeia

Júnia Carvalho

O Carmo, para quem não sabe, é um retângulo perfeito entre a avenida Nossa Senhora do Carmo – para a qual dá vista a igreja, de mesmo nome e que, segundo dizem, tem o maior número de sinos da capital – e a rua Pium-í, também chamada de Piu-í, cuja continuação é a rua Piauí, no bairro Funcionários. Nos outros lados do retângulo ficam a avenida do Contorno – que abraça o traçado original da primeira capital planejada do País, de leste a oeste e norte a sul ” mais a avenida Uruguai, antigo rio, embora alguns digam que o Carmo termina mesmo é na Rio Verde e que dali pra cima é Sion.

Nasci nesse bairro de tímidas proporções. Minha casa era um sobrado no iniciozinho da rua Grão Mogol, onde a Contorno esbanjava no centro amplo canteiro, escoltado por árvores gigantes, de sombra profunda. A casa sumiu e sobrou uma papelaria de nome estranho e placas enormes. Ali perto, a Mercearia Colombo abria a Savassi, desde sempre coração da cidade. Dá pra imaginar se o armazém fosse hoje um café-livraria bem bacana, onde a gente pudesse encontrar e beijar na boca quem se quer, numa tarde de sol e primavera? Todos aqueles balcões recheados de arroz, feijão, canjiquinha, milho, tudo a granel, nossos dedos correndo entre os grãos sem parar. Do meu sobrado pra cima, mais sobrados ( o da costureira, o da amiga que fornecia marmitas ); casas de gente rica ( uma delas abrigou a Casa Cor este ano ); padaria; farmácia; a igreja; feira livre no domingo de manhã; bar; sorveteria; e a loteria, onde meu pai tentou a sorte anos a fio.

Então. Foi no Carmo que morei até os 15 anos quando, após rápida incursão pelo Anchieta, me mudei para o Sion. E de lá parti pro Santa Lúcia, do outro lado da antiga BR, onde levei dez anos pra entender que as coisas estavam erradas. Fui e voltei: Lagoa Santa, Colégio Batista, Sion, um oásis no Carmo, Serra, Sion de novo e depois, como todo bom filho à casa torna, desembarquei na aldeia, encantada de ouvir outra vez a canção dos sinos que me chama de volta pra tribo. Melodia que o barulho das ruas não conseguiu sufocar. Não moro mais em frente à igreja, nem num sobrado. Mas reconheço na rua o relojoeiro, a senhora que perdeu a filha, a dona da cerâmica e da primeira casa onde minha irmã morou, o barbeiro, a ex-modelo, meu tio se apoiando na bengala, mas sem perder aquele seu ar de distinção. Sei que onde há um prédio era a clínica Rio Verde, cujos doentes, na sua loucura, temíamos e admirávamos. E onde tem outro prédio existia uma vila parecida com a da rua Guajajaras, cheia de casinhas de dois quartos, onde vivi em absoluta alegria, depois que minha mãe alugou duas casas e ganhamos a primeira televisão, porque até então a gente via a Jovem Guarda de cima do muro vizinho.

Mas como nem tudo são flores ou árvores ( o Carmo é muito arborizado e tem jardins lindíssimos ) há gente que o chama de Sion. Vai responder em que bairro fica a rua Outono: Sion. Onde é o Albano´s? No Sion. Onde você mora? Sion. E a pessoa mora na rua Montes Claros, esquina com Boa Esperança! Perplexa, já ouvi falarem Carmo-Sion, como se o segundo acrescentasse nobreza ao primeiro. Como se todo mundo não soubesse que a origem da dobradinha era uma linha de ônibus que vinha do centro e ligava os dois bairros. Fico me perguntando que diabos alguns têm contra este nome: Carmo. Tudo bem que muita gente não conhece o bairro, mesmo morando na cidade. Mas se a gente parar de falar, daqui a pouco ninguém mais vai se lembrar. Nem o catálogo. E o Carmo será engolido pelo Sion. Isso sem falar na ameaça do Anchieta e do Cruzeiro, separados só por uma rua, o contrário do São Pedro e Santo Antônio, que estão isolados por uma avenida quase intransponível, cujo nome parece garantir a identidade do Carmo como quem guarda o título de uma dama antiga. Os bares, brechós, salões de beleza, farmácias, padarias, escritórios, casas e apartamentos perderiam para sempre a chance de contar, entre outras exclusividades, que um dos três únicos jequitibás vermelhos da Região Metropolitana de Belo Horizonte está plantado ali, na rua Campanha, pelas mãos de Clóvis Salgado, o mesmo que dá nome à Fundação. Campanha? Que rua é essa? A rua mais linda do mundo. E fica no Carmo, faz favor.

Júnia Carvalho é jornalista e professora da PUC Minas. Em 2004, lançou seu primeiro livro de poemas, Dora Ventania, pela Mazza Edições.

junia.claudia@terra.com.br

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