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O Presépio

Márcio Rubens Prado

Todo dezembro acontece. Todas as amigas e amigos dele que vêm à cidade, seja para turismo, estudos ou negócios, não escapam de um programa inevitável: a visita ao presépio do Pipiripau.

Trata-se de velho golpe do sujeito. Aproveita-se dos visitantes para, sob o disfarce de dedicado cicerone, voltar à infância. O Pipiripau sempre o remete à meninice (esta palavra ainda existe?). Tempos em que brilhava na constelação dos moleques que infestava a periferia do futuro bairro do Sion. Área então conhecida como Acaba Mundo, um lugar muito lá longe, ancoradouro de furtivos e aflitos namorados para a celebração dos ardores do amor.

Morava numa ruela sem calçamento, mas possuidora de um encanto único: tinha o presépio mais bonito e profuso das redondezas.

Por obra e graça de uma adorável e viúva senhora. Dona Adelviva. Olhos claros, imensa, rechonchuda, um transatlântico de banhas e bondades, comandante-em-chefe da montagem do presépio e da distribuição de uma espantosa fauna pelas encostas e picos dos montanhas da Judéia.

Naqueles dezembros, Papai Noel era uma coisa muito distante. Até no segmento dos presentes. A noite de natal resumia-se à missa-do-galo e à subseqüente ceia. Gostosa, farta e nacional. Pois que, a falta de dinheiro, a desinformação e a razinzice do seu pai desprezavam, nas prateleiras, nas sacas e nas latas das mercearias de então, as nozes, as avelãs, as castanhas e o peru. Argumento irrespondível do senhor seu pai: “A gente passa o ano inteiro sem encarar esse gluglu das quantas e, chega a ceia do natal, temos de comer o catrafecho? Por quem sois!”. Além do mais, presentes só se recebiam no 6 de janeiro, Dia de Reis. Em suma, o Papai Noel não estava com nada.

Mal e mal ele tinha notícia de que o Velhinho morava na Lapônia. E saber onde ficava essa Lapônia era atributo exclusivo de um colega do grupo escolar, um tal de Cirilo. Zoiúdo, de óculos fundo-de-garrafa, primeiro aluno da sala. Por isso mesmo, o mais antipatizado da turma. Repelido, todo fim de ano, quando ele e outros tantos moleques iam às fraldas da Serra do Curral à procura de esmeril, musgos e líquens para o presépio de dona Adelviva.

Recolhidos esses inadiáveis materais, a patusca senhora reunia a meninada no terreiro de sua casa para, digamos, confeccionar a infra-estrutura do presépio. Coisas de simplicidades. Ela dispunha folhas de jornais velhos no chão do terreiro. Após a fabricação de paneladas de grude, espalhava-se a pegajosa cola nos jornais. E, sobre o grude ainda úmido, salpicava-se o esmeril. Daí ficavam prontas, após esmeradas e discutidas dobras, as ásperas montanhas que rodeavam Belém de Nazaré. O trabalho se completava quando todos, liderados pelas opulências de dona Adelviva, iam para a “sala do presépio”, um exato quadrilátero de seis metros por seis, um janelão dando para a rua. E sem grades, que tempos aqueles.

Nesse imenso salão, armava-se o presépio todo. As montanhas judaicas passavam a abrigar todos os bichos que navegaram na Arca de Noé. E até os que não enfrentaram a chuvosa viagem. Tigres, rinocerontes, carneiros, ursos, elefantes, camelos, girafas, cangurus, leões, ursos, antas, onças, capivaras, até bodes e tatus. Dentro da gruta, uma vaca malhada e um burro marrom faziam companhia ao atarantado carpinteiro, à suave Maria e ao rosado Guri, que batia as perninhas na manjedoura.

Num ano antigo daqueles, dona Adevilva encaixou um laguinho em frente à gruta: um caco de espelho, imitando água. Ali deslizavam, em idênticas e inconcebíveis proporções, um cisne branco e um barquinho, com a bandeira nacional na proa. Às margens do lago, o espanto: um inédito avião. Corretamente aterrissado. Teco-teco de celulóide, sim, mas avião mesmo.

O estupor que se abateu sobre os garotos, estudantes de catecismo em preparativos para a primeira comunhão, foi desfeito pelo irmão mais velho do nosso herói, digo, cicerone. Quando alguém ameaçou perguntar a dona Adelviva que absurdo o avião estava fazendo ali, o irmão informou: “Cambada de bocós. Não tão vendo? Mudou tudo. É pra Sagrada Família partir pro Egito. Ou cês acham que Eles ainda vão fugir pra lá em lombo de burro?”.

Dito o que, voltemos ao Pipiripau. Outra vez.

Márcio Rubens Prado é jornalista, escritor e cronista esportivo (estigmatizado) nas três divisões: torce pelo América (MG), Grêmio Portoalegrense (RS) e Botafogo (RJ).

marcioprado@magix.inf.br

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