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O Manual de Sociologia do Professor Morse

Carlos Alenquer

Todas as segundas e quartas-feiras “se não me embaraça a péssima memória” por volta das sete horas da madrugada, o professor Morse Belém Teixeira ouvia tocar a campainha de sua casa, no bairro do Santo Antônio. Eram os alunos das Ciências Sociais da Filosofia (também FAFI e só depois FAFICh) que chegavam mais cedo à Faculdade, deixavam seus livros e pastas sobre as carteiras e subiam até a São João Evangelista para acordar o mestre.

Os alunos dos outros cursos achavam que era algum fingimento explícito daqueles falsos cê-dê-efes. Como diziam os biólogos do quarto andar e as psicólogas do segundo, não podia ser sincera uma atitude que partia de malucos que gastavam seu tempo bebendo vinho de garrafão de dia, fazendo serenatas de noite e pregando o amor-livre no murinho do pátio da escola nas manhãs de aula.

Opinião a ser levada a sério. Para quem havia se determinado, como função primordial na vida, a reclamar das injustiças, das instituições, da virgindade, dos professores de uma maneira geral “e do que ensinava Estatística de uma maneira particular” buscar um professor para dar aula era um contra-senso.

Mas com o professor Morse essas rebeldias eram vãs. Sabíamos que por trás daqueles óculos estava uma pessoa acima de qualquer mau humor. E amávamos seu jeito displicente de falar da Sociologia, e admirávamos da sua paciência com a burrice, e nos deleitávamos com o seu modo de contar causos (o que mais fazia sucesso, do tanto que se repetia, falava da perda constante de seu Chevrolet “era um Chevrolet?” sempre que o professor saía para encontrar os amigos e voltava de táxi, esquecendo o carro em alguma rua incerta e não sabida perto da Gruta Metrópole, provavelmente).

O motivo da paixão era simples: a forma como ele resolvera nos iniciar na arte da Sociologia. Às sete em ponto de alguma segunda-feira perdida no tempo, ele sentou-se na cadeira que lhe cabia, deu uma panorâmica naqueles trinta e poucos gatos pingados que acabavam de entrar para a universidade – alguns de cabelos compridos, outros bem-comportados, as meninas quase todas de mini-saia e sem sutiã –  e perguntou se a Sociologia interessava mesmo aos presentes. Antes que alguém respondesse, ele foi ao quadro e escreveu Ferenc Molnar e, logo a seguir, Os Meninos da Rua Paulo.

Virou-se novamente para a platéia um tanto desentendida e disse para os que tinham dinheiro comprar o livro, para os que não tinham pedir emprestado, ou ir à biblioteca pública. E finalizou: tudo o que se sabe sobre a sociedade está aí: conflitos, acordos, solidariedade, traição. E foi-se embora.

Como na quarta-feira seguinte ele não apareceu (talvez o professor ache que a gente ainda não leu o livro, alguém contemporizou), uma rápida assembléia resolveu radicalizar: se ele não vem, então nós vamos até ele.

A partir daí, todas as segundas e quartas, um grupo (que se revezava, ninguém é de ferro) subia cedinho até o último quarteirão da Carangola, dobrava à esquerda, e na primeira portaria apertava a campainha do apartamento do professor Morse. Lá dentro, o sociólogo sorria para o espelho enquanto fazia a barba – quando fazia. Depois, descia pelo passeio do Demae conversando suas crenças com pirralhos ainda adolescidos, o paletó ao vento, as palavras exatas, os olhos atentos.

Deve ser por isso que meninas e meninos do sub-solo acreditavam, alegres, que o mundo começava a mudar de rumo com aquelas caminhadas em que as manhãs sempre pareciam ser banhadas de sol, muito sol. Mas aí veio o AI-5.

Glossário básico
Amor-livre: teoria francesa com influências de Marx, Marcuse, Freud e Mary Quant, que pode ser resumida nos versos de um bolero da década de 50 que antecipava a década hippie: “Ninguém é de ninguém/ na vida tudo passa./ Ninguém é de ninguém/ até quem nos abraça”.
Murinho: lugar estratégico, na área externa do térreo da Filosofia, onde se conversava potoca e se tomava conta da cantina, do DA (Diretório Acadêmico) e ainda da movimentação no subsolo, onde funcionava o curso de Ciências Sociais.
Gruta Metrópole: o boteco mais chique da cidade, freqüentado pelos antigões do Estado de Minas (o jornal da rua Goiás, não o Governo), intelectuais consagrados, alguns ricaços, e praticamente proibido – pelos preços que praticava –  para os alunos da Filosofia.
Filosofia: nome da Faculdade que era também FAFI, unidade da UFMG na Carangola, 288, onde ficavam os cursos de Filosofia propriamente dita, no oitavo andar, e descendo: Letras, Geografia, Pedagogia, História Natural, História e Psicologia. Mais tarde virou FAFICh.
Demae: sigla do Departamento Municipal de Águas e Esgotos, depois encampada, ou vendida, ou trocada por alguma coisa entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Hoje é Copasa, que todo mundo sabe o que é.
AI-5: chamado pelos juristas de instrumento de exceção era na verdade um Ato Institucional (mas não Constitucional) que obrigava você a fazer tudo o que o mestre mandava. Os que não concordavam, vocês sabem o que acontecia com eles.

Carlos Alenquer é publicitário, mas também meio jornalista, talvez poeta bissexto (Anúncios, 1983, Achiamé, Rio, e 21 Poemas, 1998, Mazza, BH). Nascido em Fortaleza, é belo-horizontino porque quer, não por Cidadania Honorária.

alenquer@dreamland.inf.br

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