Crônicas

Veja algumas crônicas sobre os bairros mais famosos de Belo Horizonte

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O Aviário Modelo

Alberto Villas

Quando o avião da Varig sobrevoou Belo Horizonte pela última vez, olhei acanhado por aquela janelinha redonda, lá embaixo. A cidade que estava deixando rumo a um exílio voluntário, não era tão cruel assim como eu bordei para amigos, dias antes de partir. Vi muito verde espalhado por suas ruas e avenidas, prédios que brotavam em bairros novos rasgando a periferia como massa de pizza, quando queremos fazê-la crescer. Enxergava, lá de cima, Corcéis, Pumas e Opalas circulando por suas veias, como se fossem minhas miniaturas de Matchbox que deixara guardadas na casa da minha mãe, na rua Rio Verde, 648. Visto assim do alto, era um belo horizonte.

Não sei se chorei mas, já instalado no sétimo andar do número 4 da rua Paillet vi, da janela embaçada pelo suor do vidro, uma outra cidade. Era uma Paris cheia de neblina no auge do seu inverno de 1974. As árvores não tinham folhas e uma camada fina de gelo cobria os gramados. Era um triste horizonte para quem acabara de chegar com o objetivo de ficar. No meu quartinho, instalei o quartel-general de memórias. Em cadernos Avante!, aqueles que traziam na capa um escoteiro empunhando uma bandeira brasileira, anotava o que não queria esquecer.

A avenida Afonso Pena com suas árvores cheias de amitinhas. A Sociedade Mineira de Engenheiros, onde passei grandes carnavais, a Igreja do Carmo. O Colégio Dom Silvério onde dona Maria Augusta Toscano me ensinou a ler, a rua Grão Mogol onde ficava a Padaria La Fornarina e o Bar Maron. O Sobrado do Torra onde, subindo a escada, percebi que já sabia ler: “Em cada degrau, 1 cruzeiro de economia.” O Mundo Colegial, onde comprei minha primeira sunga Big para participar de um campeonato de futebol no bairro. O Armazém Colombo, no coração da Savassi, as Estâncias Califórnia, onde meu pai comprava aquelas caixinhas vermelhas de uva-passa, vindas lá da América do Norte. As Lojas Gomes, onde comprei o Domingo, primeiro disco de Caetano Veloso. O Posto Fraternia, onde meu pai enchia o tanque do Land-Rover todos os sábados, antes de ir para o mercado.

Era no caderno Avante que anotava também os nomes das pessoas que não queria ver desaparecer na minha memória. Valdivino, o tintureiro. Geraldo Savassi, o dono da padaria. Chain, o dono do botequim. Licurgo, um velho que usava uns óculos verdes e que me dava muito medo. Doutor Asplênio, o engenheiro. Irmão Xavier, o diretor do colégio. Valter, o marido de Cindalva. Doutor Aldo, o médico. Hormínio, o farmacêutico. E Nelson Thibau, o louco que queria trazer o mar para Minas.

Naquele meu exílio em Paris, Belo Horizonte não havia mais. A livraria Van Damme onde comprava a Rolling Stone. A banca de jornal onde namorava os fascículos dos Gênios da Pintura. A Confeitaria Bosch, onde comia com o meu pai o melhor sanduíche de pernil do mundo. A Loja Peps na rua da Bahia, onde minha mãe namorava os eletro-domésticos de última geração. O Mineirão, novinho em folha, onde assistia os jogos do meu América, mesmo nas quartas-feiras de chuva em que enfrentava o Democrata.

Paris era uma festa e Belo Horizonte um retrato dependurado na parede, que doía. Procurava desesperadamente os poemas de Drummond na Joie de Lire, uma livraria no coração Quartier Latin. Era neles que me agarrava nas horas de muito frio e solidão. “Vai, Hotel Avenida, vai convocar teus hóspedes no plano de outra vida”. Na procura da vida passada a limpo, encontrava uma parte da minha Belo Horizonte. A outra, continuava procurando pelas ruas de Paris.

Foi numa manhã de domingo, andando pela feira da rue Mouftard, entre cerejas e framboezas, coelhos e carneiros, camemberts e bries, que me veio na cabeça o Mercado Central. O bar que ficava no corredor de passagem, onde meu pai tomava a primeira Brahma Chopp do dia, acompanhada de iscas de fígado. A barraca onde minha mãe se deliciava com os doces de leite, com a mangada, a pessegadas, a figada e com aquela goiabada cascão cem por cento goiaba. A barraca de bananas, a de laranja e a de legumes, que vendia até taioba.

Tarde da noite, já no quarto onde morava, depois de um chá acompanhado de pão preto com geléia de laranja amarga, peguei o meu caderno Avante decidido a descrever, com todos os detalhes, a loja que mais me impressionava no Mercado Central de Belo Horizonte. Ela vendia frangos vivos ou mortos, à escolha do freguês. Era só apontar e, em poucos minutos, ele estava nas suas mãos, morto e limpo, ainda quente. Mas você tinha também a opção de levá-lo vivo para casa. Depois de escolhido, um barbante juntava seus pés e ele era enrolado num exemplar do Diário de Minas, ficando de fora, só a cabeça. Era assim que meu pai levava para casa, todos os domingos, um frango vivo que seria abatido no quintal da minha casa. Ele queria o sangue fresco para o molho pardo. O bicho chegava em casa com o bico aberto e muita sede de viver, pobre coitado. Abri o caderno Avante! na primeira página, inteiramente branca, e escrevi um título bem caprichado: O Aviário Modelo.

Alberto Villas é mineiro e tem, até o momento, sua vida dividida em três etapas. vinte anos em Belo Horizonte, uma década em Paris, e vinte anos em São Paulo, onde atualmente trabalha na Rede Globo. tem quatro filhos, dois franceses e duas paulistanas, além de uma neta, mineira.

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