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Mestre Velloso, no Instituto de Educação e no Alpino

Antonio Ribeiro de Almeida

A 11 de fevereiro de 1986 faleceu em Belo Horizonte, depois de prolongada enfermidade, Arthur Versiani Velloso, catedrático de História da Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais e membro da Academia Mineira de Letras. Ele foi a própria Filosofia nos anos em que empolgou estudantes nas suas aulas no Colégio Marconi e na Faculdade de Filosofia da UFMG. Sua pessoa sempre foi multifacetada e como lhe assentava bem a divisa que Descartes adotara : ” Je me cache- Eu me oculto”.

Conheci Mestre Velloso quando ainda fazia o Científico. Foi num Curso de Férias que ministrou, no inicio de 1952, no Instituto de Educação. Eu havia chegado a Belo Horizonte para trabalhar na Rádio Inconfidência, estudar e fazer o Exército. Da minha pensão de estudante pobre, em plena Avenida Amazonas quase esquina com a Praça 7, caminhava ao longo da Afonso Pena aspirando o doce aroma que vinha do Parque naquelas belas manhãs belorizontinas. O Instituto de Educação, imponente em suas colunas dóricas, foi para mim o que deve ter sido a ágora de Atenas para os amigos de Sócrates. Ali entrava experimentando grande felicidade e na expectativa que os problemas do sentido da vida, da verdade, do bem e do mal, estavam encontrando um encaminhamento. Era preciso chegar antes das sete horas. A sala estava sempre lotada e os melhores lugares disputados pelos alunos. No fundo, ocupando quase toda a mesa com o seu corpo gigantesco, Mestre Velloso impunha uma presença muito forte que nunca mais percebi em outros professores. O que logo se destacava era sua vasta cabeleira, algo desorganizada, revolta e a voz poderosa. A eloquência com que ministrava suas lições ia num crescendo para terminar num clímax que a todos encantava. Os seus olhos quase não eram vistos. Grossas lentes, marrons ou verdes, os ocultavam da nossa curiosidade. No rosto moreno, a boca e os lábios compunham uma máscara indecifrável. Nas palavras deixava transparecer uma ironia apenas sugerida. Assim procedendo ele nos fazia participar de um diálogo fantástico e nos fazia crer que éramos mais inteligentes e cultos do que realmente éramos. O tempo corria célere e o final da aula chegava para o desgosto de todos nós. O Mestre nos fizera conviver com Sócrates, Platão ou Aristóteles e despertara em nós toda antipatia do mundo pelas Xantipas que não entendem a missão do filósofo. O real, o que era afinal? Belo Horizonte era Belo Horizonte ou Belo Horizonte era Atenas? E com os passos medidos, olhos cheios do azul, eu voltava, sem pressa, para o meu dia a dia. À noite, no quarto acanhado que compartilhava com um camelô, abria, cioso, o meu Leonel Franca e tentava, pelo estudo, recuperar e fixar o que fora ensinado naquele dia. Mas como o estudo era árido. A informação objetiva, segura e fria de Franca não substituía todo o deslumbramento que Mestre Velloso havia criado em mim com sua exposição. Ali, no Instituto de Educação, bem antes de terminar o meu curso Científico, resolvi abraçar a Filosofia. Queria participar daquele grupo de homens que vieram ao mundo para tentar compreender o sentido da Vida e do Universo, e, aos quais, não seduzia a busca de riquezas, do poder ou viver para satisfazer suas paixões. A Filosofia seria o meu penacho.

Dois anos depois entrei, finalmente, no Curso de Filosofia da FAFI, ainda no edifício Acaiaca, para ser aluno de Mestre Velloso. Nas aulas percebi todo o espírito, toda a ironia, ora sutil ou sardônica, com que flagelava os apedeutas e aqueles que traiam o espírito do “clerc”. Não era por acaso que um dos seus textos de leitura obrigatória era o Le Trahison des Clercs, de Julien Benda. Lecionava, preferencialmente, aos sábados, toda tarde. La pelas 18 horas íamos, a seu convite, bebericar um chope, comer batatas com queijo no Alpino, rua da Bahia, mesmo quarteirão do Maleta, numa situação descontraída e livre, quando então nos informava da política universitária e dos acontecimentos culturais de repercussão mundial.

Com sua temida ironia ele criticava políticos, membros da Congregação e aqueles que considerava como traidores do “clerc”. Naqueles momentos sua gargalhada retumbante era ouvida em todo Alpino. Sentia-me como um pajem naquela confraria de cavaleiros já sagrados pelo estudo e dedicação ao Mestre e que eram Morse Belém Teixeira, da Sociologia; Amaro Xisto de Queiroz, da História e Luis Bicalho, filósofo e comunista histórico.

Nenhum professor foi mais próximo de nós. Acredito que dele herdei um grande e desinteressado amor à Cultura e à Filosofia. Herdei, finalmente, um espírito livre que só pode nascer da crítica. Como sua enfermidade foi longa e penosa a morte veio como uma libertação. Sei, finalmente, que na sua ironia, ele me pediria, num fantástico diálogo post mortem, que eu sacrifique por ele um galo a Esculápio. ( Ver o sentido deste pedido em Platão, Phedon, Ed. G. Budé). Minha fé católica me impõe o suave dever da oração e uma visita ao seu túmulo. Por tudo isto é que, a partir de agora, Belo Horizonte estará insistentemente sussurrando aos meus ouvidos:

“Por que não vais a Belo Horizonte? Volta lá.

Anda! Volta lá, volta já.”
(Carlos Drummond de Andrade, Triste Horizonte)

Antonio Ribeiro de Almeida nasceu em 1935, em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata. Cursou filosofia na FAFI e atualmente mora em São José do Rio Preto. De vez em quando, vai a Belo Horizonte rever os amigos, parentes e tentar reconstruir na memória a bela cidade onde viveu, amou e que não existe mais.

almeida.35@uol.com.br

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