Crônicas

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Infância na Cidade Grande

Dina Maria de Souza

Meu pai acomodou-me sobre a sela e pediu um sorriso para a foto. Para acabar de compor o quadro, foi buscar o João, que estava entretido com os Canários-Belga oferecidos pelo homem de suspensórios. A foto revelada ali mesmo flagrou os dois irmãos em uma das poucas ocasiões em que nos vestimos como gêmeos. Esse momento, revivido todas as vezes em que consigo arrancar da minha mãe a latinha de biscoitos colorida, onde ela guarda a sete chaves as fotos de família, aconteceu no Parque Municipal. Era lá que meu pai costumava levar os quatro filhos em algumas manhãs de Domingo, enquanto minha mãe preparava o almoço. Faço questão de esclarecer o horário, pois à tardinha tínhamos de estar arrumadinhos para assistirmos à missa na Igreja do Calafate.

Eu sabia que era Domingo porque os portões do depósito de material de construção ficavam cerrados. Morávamos em uma casa de janelas verdes, bem nos fundos do depósito, um paraíso misterioso e arborizado. Atrás da casa passava o trem. Há poucos metros da linha existia um córrego onde meu irmão iniciou sua vida de pescador, contentando-se com piabinhas magrelas.O filho do carroceiro, já rapazinho, desbravava o mato com um facão. Íamos seguindo as suas pegadas, com medo de cobra. Com o tempo, formaram-se as trilhas, cercadas dos dois lados por girassóis, que acabavam na linha do trem. Lembro-me de um girassol boiando sobre as águas de um prato esmaltado azul na escada da cozinha.

Fomos crescendo. O tronco da mexeriqueira pintado de joaninhas vermelhas, os chinelinhos de dedo perdidos para sempre no imenso monte de areia, as duas vizinhas -eram irmãs- , que tinham papo, o sapateiro que ganhou na loteria e sumiu, os coquinhos que caíam do coqueiro do depósito, vendidos às escondidas através da cerca que separava o depósito da rua Marcílio Dias. Com a receita das vendas, corríamos os quatro para o armazém da esquina. O Senhor Vicente fazia girar o baleiro lustroso de vidro para enchermos as mãozinhas.

Nas Sextas, meu pai buscava no Mercado Central legumes e verduras e trazia nas costas um saco contendo um cento de laranjas, que acabavam nem bem o final de semana havia chegado ao fim. Nos momentos de folga, ele colocava uma bacia de alumínio no colo e íamos recebendo as laranjas descascadas com direito à escolha do feitio das tampinhas.

Minha mãe fazia todo o trabalho doméstico, cortava os cabelos dos filhos, cosia ela mesma nossas roupas e exercia duas tarefas que para mim pareciam das mais complicadas: encapar os cadernos e marcar consulta no INPS.

Adorávamos a escola. Meu pai atravessáva-nos a rua Campos Sales e andávamos sem medo quarteirões compridos até o Sesi, onde cursamos o Pré-Primário, e, mais tarde, até o Maurício Murgel.

Aventura fascinante era ficarmos perdidos por alguns minutos, à noite, na Praça Raul Soares. Meus pais levava-nos para apreciarmos a fonte que esguichava longe a àgua e o chafariz. Ocupavam um dos bancos para aproveitarem “fresca”, como diziam, e soltavam as crianças. Um misto de prazer e pânico tomava conta de mim e de meus irmãos quando éramos sugados por aqueles labirintos verdes.

Com a adolescência vieram as matinês no Zezé Pulguento, apelido carinhoso que o bairro deu a um dos muitos cinemas de bairro da época, o Cine São José, localizado`a rua Platina. Recentemente, convidamos minha tia, que nos levava a cinemas e teatros, para retornar conosco àquele espaço. O cinema foi transformado em um teatro moderno e confortável, o Kleber Junqueira, onde assistimos ao %u201CDrácula%u201D. Ao lado de vizinhos de infância, lemos as reportagens afixadas no hall do teatro, que elogiavam a produção cultural e as novas instalações, além de tecerem comentários nostálgicos sobre o nosso querido Zezé.

Crescemos mais e a cidade também. Hoje meu pai não carrega o saco farto de laranjas nas costas, já que existe a comodidade do sacolão, mas filho dele nunca tem permissão de deixar a casa, em visita nos finais de semana, se não levar consigo uma penca de bananas e algumas laranjas. Já adultos, freqüentamos nós, os filhos, o Mercado Central pelo prazer de comermos fígado acebolado com jiló na chapa. E hoje tive notícias, através de um taxista, que existe o projeto de recuperação da Praça Raul Soares.

Dina Maria de Souza é bancária, formada em Letras pela UFMG.

dinadom@terra.com.br

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