Crônicas

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Horizonte em Ocaso

Lindolfo Paoliello

Há uma opção afetiva que a gente pode fazer na vida e que, por um motivo ou outro, não é possível na escolha de parentes, sócios, vizinhos e mesmo, às vezes, do marido ou da esposa: é a escolha da cidade onde se quer morar.

Não é uma escolha fácil e seria equivocado tratá-la a partir da visão de que haveria uma parte pró-ativa, o imigrante, e outra passiva, a cidade que o recebe e acolhe. Não é assim. A cidade é um organismo vivo que tem sua força, recursos, encantos e seus tentáculos e, assim, seus instrumentos próprios para atrair e segurar seus habitantes. Por outro lado, podem lhe faltar recursos e atrações que tiram dos seus moradores a vibração e, não raro, os expulsa.

Belo Horizonte não é exceção e tem seu ritmo de vida ditado por esse movimento de sístole e diástole. Nasceu funcionária pública, instalando próxima à igreja da Boa Viagem a burocracia vinda de Ouro Preto; acolheu uma italianada alegre, trabalhadora e ruidosa que temperou o espírito nostálgico do mineiro; cresceu com a migração dos jovens do interior, em busca de seus excelentes colégios e faculdades; desenvolveu-se com a capacidade dos empreendedores e o esforço dos trabalhadores. Estes vieram em busca de um horizonte mais amplo do que o das montanhas que impediam a mecanização; das minerações esgotadas ou dos sertões pisoteados onde se sobrevivia apenas.

BH acolheu e expulsou. Sobretudo, não tem sido capaz de impedir a drenagem de cérebros exercida pela capacidade polarizadora de outros centros. Agravada por uma indolência jeca que mina suas forças e a inibe de criar, ousar, competir.

Tomando apenas como amostragem o pequeno, mas pleno de pulsação e vida, universo dos cronistas, convém pensar porque Fernando Sabino apagou sua luz, outro dia, sem que nossos filhos tenham tido a oportunidade de conhecê-lo, bater com ele um papo na Savassi. O mais fértil e popular cronista brasileiro exerceu o seu poder de escolha quanto à cidade em que queria morar. E trocou Belo Horizonte pelo Rio no final dos anos 40, com outros mágicos, como Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino e o mineiro de Cachoeiro de Itapemirim Rubem Braga. Por que os cronistas se mudaram de BH?

Um dia perguntei a Paulo Mendes Campos o que eu poderia dizer, em uma breve saudação, que mexesse com Otto e ele respondeu, de pronto: “Pergunte-lhe se mineiro bom é o que saiu de Minas”. Isto é verdade ou mais um dos “desatinos da rapaziada?”

Mas o que eu queria dizer é que optei por Belo Horizonte quando colegas e grandes amigos escolheram São Paulo e foram criar o novo jornalismo brasileiro no Jornal da Tarde, (Estadão) e Veja, na década de 60.

Desde então, BH virou cidade grande, quadruplicou sua população, mas eu me pergunto: existe hoje em BH um ambiente em que germinaria o grupo de cronistas que se extingue com Fernando Sabino? Ou de artistas que se uniram em torno de Capanema e Carlos Drummond de Andrade? E as instituições financeiras modelares? O que de fato existe e é referência mundial, o corpo médico de Belo Horizonte: a população sabe da sua excelência e tem acesso a esses craques?

Belo Horizonte foi, neste vasto mundo, a cidade que escolhi. Mas sinto um nó na garganta quando pronuncio o nome de minha cidade. Ela se perdeu em algum ponto, há algum tempo que não sei qual ou quando. Só sei que me dá uma dorzinha triste quando percebo que mineiro realizado é mineiro federal.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor dos livros O País das Gambiarras (Editora Record) e O Melhor das Crônicas (Editora Del-Rei). Nasceu em Ubá – MG, e vive em Belo Horizonte desde 1959.

lindolfo@paoliello.com.br

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