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Filho de Bicheiro

Carlos Perktold

Seu nome era Éber, mas nós o chamávamos de Ebinho. Ele tinha a mesma idade de todos do nosso grupo de meninos, mas nele havia alguma coisa de triste, até mesmo nos raros sorrisos, que o fazia parecer mais velho. A tristeza da sua alma infantil, imperceptível pela turma, estava refletida no seu olhar e somente depois de adulto disso me lembrei e entendi. Seus cabelos ou estavam grandes demais ou apareciam, a cada três meses, cortados de forma estranha, cheios de “caminhos de ratos” como dizíamos naquela época. Nenhum de nós entendia que isso acontecia por falta de dinheiro para o cabeleireiro. O corte era feito em casa, pela mãe. Ela, desconhecendo a técnica, não se preocupava em tirar apenas uma parte dos cabelos que sobrava sobre as orelhas do filho. Cortava em excesso e, sem ferramenta adequada, fazia um serviço malfeito e o filho é quem passava vergonha e humilhações. Vendo seus cabelos picados daquela forma, a gozação entre os amigos era inevitável.


Ebinho era filho de bicheiro na rua onde morávamos quando crianças no bairro Carlos Prates, em B. Horizonte. A sua família morava num dos dois barracões construídos nos fundos de uma casa. A privacidade entre as duas famílias era mínima e, por isso, havia uma solidariedade inquestionável entre eles, em especial entre as duas mulheres. Às vezes, o pai de Ebinho ficava preso várias semanas e a vizinha mais próxima e as outras auxiliavam a família. Ao contrário de um outro morador das redondezas, comunista ativo, a cuja família, quando preso, o Partidão nunca deixava faltar nada, o banqueiro para o qual ele trabalhava nunca aparecia ou mandava um representante para ver como estava a família na ausência do pai. A atividade de bicheiro em meados de 1950 não tinha o glamour de hoje com banqueiros se declarando %u201Cempresários do ramo lotérico%u201D. A contravenção era combatida pela polícia e as prisões eram notícias nos jornais. Esse repressivo conjunto era o sofrimento de todos da família, em especial por Ebinho, que, sendo filho mais velho, se colocava no lugar de um pára-raios das dificuldades emocionais da família.
Lembro-me de que, algumas vezes, chegávamos perto da casa dele quando a polícia já havia levado seu pai preso. Encontrávamos a mulher olhando o infinito, representado por um ponto fixado no espaço, perplexa no portão de entrada do barraco, e Ebinho chorando um choro sofrido e calado. Em outras ocasiões víamos que era ele próprio quem, na ingenuidade de menino, tentava impedir que os policiais levassem o pai. À polícia ele pedia, implorava, gritava e, reconhecendo sua impotência e a inutilidade de seus esforços, gritava de ódio e xingava tudo que podia, enquanto seu pai era trancado na traseira da rádio-patrulha. A mãe olhava desesperada a luta do filho, com outro no colo, um terceiro segurando a barra da saia e o quarto na barriga. A lembrança que tenho é de que ela estava sempre grávida. Nunca soube nome dele, pois, para nós, ele era apenas “o pai de Ebinho” e para os nossos pais e os vizinhos, “o bicheiro”.

Ebinho era um bravo guerreiro lutando em defesa do pai, mesmo sabendo que o trabalho dele era ilegal. Acho que nunca ocorreu a ninguém da família que seria menos doloroso para todos se ele trabalhasse noutro segmento. O jogo-do-bicho não era escancarado como hoje, com lojinhas espalhadas pela cidade aceitando apostas o dia inteiro e todos fingindo que elas não existem. Nos idos de 1950, ser bicheiro era uma heróica atividade, reservada a quem fosse peitudo para enfrentar a polícia e a cadeia por curtas e sucessivas temporadas. Para quem era visto com esse aposto, significava também que ele era um soldado raso num regimento de contraventores, um cavador que, ao final do dia, seu exército havia conseguido transformar pequenas apostas numa substancial trincheira, despejando no caixa de um desconhecido banqueiro, todos os valores arrecadados às escondidas. Nada diferente de hoje, exceto o rigor de então com que eles eram combatidos. Tempos difíceis para Ebinho, seu pai, seus irmãos e para a maior guerreira da região, sua mãe. Naquela época ela não devia ter mais que 32 anos de idade, mas, me lembrando dela hoje, tenho a impressão de estar vendo uma senhora idosa, com o rosto marcado pelo sofrimento, pela tristeza e pelo olhar com que via o marido dentro do carro da polícia. Nunca esqueci os olhos do pai, a pedir desculpas pelo constrangimento provocado. Eles continham o lamento de ter sido preso, o mesmo olhar que prometia vida nova no futuro, observando a postura dela, que aceitava tudo e não acreditava em qualquer mudança na sua volta, quinze ou vinte dias depois. Quando ele aparecia havia uma festa na família, como se ele tivesse chegado de uma viagem de negócios com a mala cheia de presentes. Para a família o maior deles era a sua presença.

Apesar das dificuldades emocionais e financeiras que sua atividade profissional causava à família, percebo hoje que entre eles circulava amor. A miséria, a ausência periódica dele, o perigo oferecido pela profissão e as constantes dificuldades, tudo os unia. A última cena que me vem à lembrança é do pai chegando de uma dessas temporadas fora, correr para carregar o filho menor, andar abraçado ao Ebinho, que chorava de alegria de vê-lo, e ir ao encontro da mulher grávida.

Carlos Perktold é psicanalista em Belo Horizonte, integrante do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais e da Associação Brasileira de Críticos de Arte-ABCA.

perktold.bh@terra.com.br

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