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Estrangeira Dentro de Casa

Ana Vasco

Sempre me perguntaram por que vim parar em BH. Quando era criança, me sentia indisposta com a pergunta. Era como, mesmo sem ter raízes bem firmadas no solo, esta terra já adubasse meus sonhos desde que me vi e senti menina. Belo Horizonte era minha e disso já tinha certeza. Mais minha do que o meu berço ou que a primeira bicicleta. Com o tempo, enfim, aprendi a ter a coragem de confirmar que era uma estrangeira aqui. Estrangeira como a que vem de fora e não como aquela que não é capaz de se integrar ao novo chão.

Talvez tenha vindo parar em Minas apenas por obra do acaso. Depois de muitos anos vivendo na África e voltando a inspirar os ares lusitanos sem grande prazer, meus pais só quisessem sentir novamente o calor do povo dos trópicos, provar o alívio das montanhas e saborear o tal pão de queijo que só aqui se sabia enrolar e assar com perfeição. Tão menina e só com uma mala de poesia nos braços, eu acreditava que essa não era uma escolha, era a sina inevitável, a correção da história.

E se não nasci na Praça da Savassi, foi lá que construi meu castelo. Descendo a Lavras, subindo a Contorno, fui desenhando meu próprio mapa. Aqui e ali fiz amigos, plantei minhas árvores, beijei meus amores, inventei despedidas, espalhei promessas. E guardei saudáveis lembranças das ressacas curadas com uma última dose no Bar do Lulu; das risadas que guiavam as lentas caminhadas pela rua Uruguai; dos domingos quentes e coloridos nas trilhas apertadas da feira da Praça da Liberdade; dos passeios vazios, margeados de amigos, na Cidade Nova; das luzes foscas que provocavam mágicas sombras na Afonso Pena, de madrugada, em cada volta para casa.

Se a certidão de nascimento foi a principal testemunha de acusação – denunciando sempre meu estado de eterna estrangeira -, as ruas, os muros, os prédios, os postes são provas do amor incontido que eu ” semente pronta para explodir em broto ” escondi em diferentes quintais desta terra.

Talvez minha história possa ser um dia usada como uma garantia de minha mineirice, mas ainda me falta mais. Preciso ter a certeza de que esta terra também irá me acolher depois de perder minhas flores, recolher cada galho. Sorte tiveram meus pais que souberam escolher o lugar em que iriam morrer…

Um dia, quem sabe, vou poder responder à pergunta que tantas vezes me fizeram com menos desconforto. Não foi por pura sorte que vim parar aqui. Algumas pessoas nascem em uma cidade pois não têm outra escolha, outras são encantadas e atraídas pela terra que as quer cultivar e fazer delas o fértil adubo quando o outono chegar. Vim para ficar e ser daqui, para sempre estrangeira dentro de sua própria casa.

Ana Vasco  Jornalista formada pela PUC-Minas, filha de portugueses que adoravam viajar pelo mundo. Nasceu em Harare (Zimbabwe) e vive em Belo Horizonte desde 1979.

amvasco@gmail.com

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