Crônicas

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A Araponga da Afonso Pena

Rogério Miranzelo

Para Miguel Sanches, que celebrizou o canto de uma ave no conto Hóspede Secreto.

Martelo batendo na bigorna, o som cortante, metálico. Quem ouviu a araponga cantar, em plena avenida Afonso Pena? Local extraordinário para se ouvir o estridular do ferreiro! E quem me lembrou disso foi o Mauro. A araponga ficava perto da prefeitura, no centro da cidade, anos 1970. E causava grande alvoroço, devido à curiosidade que despertava. Que som era aquele? Pássaro? Como podia viver por ali? Mas o canto feio e estridente da araponga casava-se bem com o sufoco das marchas, das pernas apressadas, com o estorvo dos automóveis na avenida, as buzinas e o cinza dos dias.

Nenhuma ave marcou tanto nossa Belo Horizonte, embora haja outras histórias. A sogra do citado amigo nos conta a de uma ave polêmica, que também vivia na área central, anos 1960. Um pássaro-preto cantador, que ficava em um açougue do Barro Preto. Cantava tanto que a vizinhança enlouquecia, pois o bairro, ao contrário de hoje, era bastante residencial. Teve até polícia: fazer o que com o bichinho, leva pra lá, traz pra cá. E ele, o arranca-milho, indiferente à confusão dos homens, tranqüilo na gaiola, a exercer o dom que Deus lhe deu, o de cantar bonito.

No momento em que escrevia esta crônica, algo martelou na minha cabeça (téin!), e me lembrei da araponga da Afonso Pena. Houvera esquecimento porque, na época, eu não sabia identificar aquele estranho som. Só anos mais tarde, já na década de 1980, é que vim a saber desse canto, vindo de outra araponga, no bairro Nova Granada. Nada chama tanto a atenção dos transeuntes. É como se ela fracionasse o tempo, com suas fiéis batidas. Ela, que aparece nos versos da linda canção do Fagner:  ” já ouviram o canto triste da araponga, anunciando que na terra vai chover?”.

Os pássaros da minha infância e adolescência, na Barroca, eram basicamente os pardais. Eram os que eu via e ouvia. Historicamente desprezados, os pardais é que faziam algazarra na porta de minha casa, no quintal e nos muros. Que me recebiam nas manhãs de sol, ao sair de casa. No fio, na lama, na pedra, eis o pardal a brincar feliz, contrastando com meu jeito meio calado de ser. Hoje vejo e reconheço muitos outros pássaros em nossa cidade. E prefiro BH assim, com essa democracia de cores e sons. Há espaço para canários, papa-capins, pássaros-pretos, rolinhas, andorinhas, sabiás, maritacas, bem-te-vis ( que imperam por aqui ) e até gaviões.

Quisera uma cidade assim, de pássaros e árvores. Cada rua, um bosque; cada enxurrada, um rio; cada ruído, um cantar. Não, não. As cidades imaginárias estão dentro de nós, e é nossa missão revelá-las, em meio aos ruídos, à fumaça e à solidão.

Rogério Miranzelo é cronista, contista e poeta, autor dos livros Belo e Lua diferente.

rogerio@miranzelo.com

www.miranzelo.com

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