BH na literatura

Veja o que alguns autores famosos escreveram sobre Belo Horizonte em algumas obras consagradas da literatura brasileira.

Fernando Sabino

Cartas na Mesa

“Londres, 14 de Abril de 1966

Nicanor,

Está um frio desgraçado (caindo neve lá fora, em plena primavera). Neste silêncio que sempre faz em Londres, dá para sentir o correr e decorrer de tantos anos. Pois imagine o que senti com as duas crônicas suas sobre Belo Horizonte daquele nosso tempo, que me mandaram daí.
Você não perde vaza, Nicanor. Imediatamente comecei a relembrar pessoas e lugares que você não chegou a mencionar. E os tipos populares que enchiam as ruas, como o Mané das Moças, o Bigodinho de Arame, o Muquirana. Sem falar no Okey ou no Lulu, irmão do Barão, do Tonelada e do Bolinha era a família toda.

E os sorvetes daquele tempo? Dos “doces gelados Aída”D você se lembrou: eu me revi chupando um daqueles picolés de côco da Sorveteria Sibéria, na Rua da Bahia. (Havia outro, de creme coberto de chocolate, custava mais caro, quinhentos réis, os outros só duzentos.) E aqueles picolés quadrados do Bar do Ponto. A Sorveteria Avenida, em frente ao cinema Glória, de sorvete sentado. Sem falar dos de canoinha, enchida com uma pá, o sorveteiro empurrando a carrocinha e buzinando em cada esquina para nos convocar. Algumas tinham uma rodinha de madeira com uns preguinhos e uns números escritos, de sortear o tamanho do sorvete redondo este, como um sanduíche entre duas casquinhas. Até sorvete de raspa havia, no abrigo do Bar do Ponto, esse você provavelmente não se lembra: gelo raspado e uns pingos de essência ( o melhor era o de groselha). Em matéria de sorvete é todo um capítulo. O do Trianon, coisa fina, de taça, com uma esfera e meia. Sem renegar o chope mais tarde. E sem falar nas inesquecíveis empadinhas do Trianon!

E a “água sincronizada” da Rua Tupis, o sanduíche do Rei dos Sanduíches, o chope do Tip-Top ou do Bar Adolph? Tudo isso, me desculpe, você esqueceu de citar. As broinhas de fubá da Celeste, Nicodemus! Onde no mundo existe hoje em dia broinhas de fubá ou bolinhos de feijão?

Estou só lembrando coisas e gentes de nosso passado já remoto, mas que você não pode deixar de se lembrar. As figurinhas das balas holandesas estas eram da nossa infância. Em compensação, da adolescência, as festas na casa do Alvimar Carneiro de Resende, pai da Nilza e do Sílvio. A piscina da casa do Petrônio de Almeida Magalhães na Avenida Paraúna.

E a Hora Dançante no Jóquei, mais tarde Clube Belo Horizonte nós dois já grandinhos, querendo ambos dançar com a linda Belkiss ao mesmo tempo. O “Especial” bonde das alunas do Colégio Santa Maria e do Sacré-Coeur, que a gente seguia de bicicleta, às vezes dependurando no estribo e paquerando as meninas, para indignação das freiras nos primeiros bancos.

A Casa Mal Assombrada da Avenida João Pinheiro. O Armarinho da Rua Santa Rita Durão, ao lado do Cabeleireiro Milú fazendo cachinhos nas moçoilas. O sapateiro Troppia, na Avenida Paraopeba, que a noite tocava na orquestra do Municipal. E as Irmãs Segal, que cantavam na Rádio Guarani? O locutor Bueno de Rivera, poeta nas horas vagas, noite adentro anunciando os bailes da cidade pela “Pê Erre Cê Sete, Rádio Mineira de Belo Horizonte. Dançam animadamente, na Rua Erê, bairro do Prado…” (incidentemente, era onde morava o Amanuense Belmiro do romance de nosso amigo Cyro dos Anjos, que assim ajudávamos a promover). O programa cômico do Compadre Belarmino. O Edu da Gaita. E na rua, o Bloco da Franga, só gente da sociedade disfarçada em fantasias malucas, desfilando nas batalhas de confete pré-carnavalescas… O rinque patinação da Avenida, o golfinho, o “Ioiô Paris, esporte da moda” – aquele japonês fabuloso a jogá-lo numa vitrine do Park Royal, na Rua da Bahia. Em frente, a saudosa Baleira Suíça, com aquelas duas vendedoras louras, gordas e sorridentes. A casa Bleriot, o farol da casa Bleriot…

Estou perdido, aqui em Londres, em meio a essas lembranças gratuitas e sem nexo. Se continuar assim, acabo pedindo ligação para você.

Figuras daquele tempo: o Loreto Pão duro. O Zé dos Lotes. Sapatos, só com o Emílio Curtiss Lima, da Sapataria Central, irmão do famoso Alcides, extrema esquerda do Palestra Itália. E mais: o Nino, o Ninão e o Nininho. Do América: Nelson, Pedercini, Taiã; Ralph, Humberto, Virgílio. Chega? O Souza, do Atlético, tinha as pernas cabeludíssimas. O Lola e o Bala. Kafunga, grande goleiro. E o maior dos atacantes, Guará, o “Diabo Louro”D!

Entre restaurantes, o Meira também era bom, você esqueceu de mencionar. E o Monsã. (O pintor e o restaurante.)

Chega, não posso mais. Paulinho, sua crônica me fez desandar aqui em Londres. Até que eu estava indo bem diretinho, de repente, pá! aquela pedrada. Vou parar por aqui, senão viro um trapo.”

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